sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Rosh Codesh - A Festa da Lua Nova

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O dia 6 de Janeiro de 2011 do calendário Gregoriano, corresponde, no calendário hebraico, ao dia 1 do mês de Shevat do ano 5771. É, pois, o primeiro dia de um mês, um dia que era muito especial nos tempos bíblicos, como adiante se explica.

O significado
Quantas vezes, ao lermos a Bíblia não tropeçámos já em expressões ou termos que não compreendemos? E quantas vezes optámos por prosseguir a leitura, sem saciar a dúvida?Por exemplo, se tivermos conhecimentos para ler “Rosh Codesh” no texto hebraico, ou então se ouvirmos um judeu a referir-se a “Rosh Codesh”, compreendemos a que é que ele se está a referir? … E se, no contexto bíblico, (e agora já em português) nos depararmos com a expressão “Lua Nova”, … sabemos do que se trata? É que, na Bíblia, “Lua Nova” está longe de se referir apenas e somente a uma fase da Lua. Na verdade, não sendo um enigma bíblico, também não tem um sentido totalmente transparente e óbvio, a menos que façamos uma pequena viagem pelo mundo bíblico.

Na verdade, “Rosh Codesh” e “Lua Nova” estão relacionados. Literalmente, Rosh Codesh significa “cabeça do mês”, já que a palavra “Rosh” tem a conotação de “primeiro”, ou “cabeça”. O Rosh Codesh (que aparece no texto bíblico) ou “cabeça do mês” (literalmente) será, então, nem mais nem menos que o início do mês, o primeiro dia de cada mês.

“O dia é permitido!”
Obviamente que naquela época o conceito de medição do tempo já era minimamente conhecido. Mas não era um bem omnipresente e sofisticado como é hoje. A informação relativa ao tempo ou aos tempos, não entrava pelas casas de Israel com os cumprimentos da NASA, nem por acesso com fibra óptica à Internet. Mudar de mês significava tudo menos virar a folha de um calendário, ou comprar a revista preferida.

Para se determinar o momento em que a lua se encontrava na fase de “nova”, havia dificuldades a vencer e critérios específicos a seguir. Na verdade, podemos dizer que eram três os passos principais no tratamento dessa informação. Em primeiro lugar, o avistamento da lua tinha de ser testemunhado e reportado ao Sanhedrin em Jerusalém, o mais depressa possível. Nesse passo específico, o testemunho de um único indivíduo não era válido, mas a palavra de pelo menos duas testemunhas já era aceite como verdadeira, dentro do espírito das normas Moisaicas que regulavam a vida social e religiosa de Israel (Números 35:30; Deuteronómio 17:6; 19:15). O dever de reportar a nova fase lunar era tão importante que no caso de acontecer num sábado, dava à testemunha imunidade em relação às leis restritivas do Shabbat. E não somente a ela, mas também a todos os que tivessem de a ajudar, quer com alimentação, protecção ou outro tipo de ajuda, a fim de que lhe fosse possível chegar rapidamente a Jerusalém com aquela informação. A urgência do processo estava, obviamente, ligada aos sacrifícios que tinham lugar no Templo relacionados com o Rosh Codesh, e que tinham de ter lugar na altura certa. Já na cidade, as testemunhas que iam chegando eram recebidas num pátio especialmente separado para elas, onde lhes era provida uma boa refeição, no sentido de as encorajar a repetir o acto em vezes futuras.

A seguir, e em segundo lugar, o avistamento era validado. A informação era entregue no Sanhedrin, muitas vezes corroborada por pinturas ilustrativas das fases da Lua, onde as testemunhas identificavam e faziam corresponder o seu próprio avistamento. A informação da altura correcta servia para se determinar se o mês era de vinte e nove ou trinta dias. A frase que todos aguardavam da boca do Príncipe do Sanhedrin era, então, proclamada: ”O dia é permitido!” E, sem demora, começavam todos os preparativos no Templo no sentido de prosseguir com as cerimónias sacrificiais necessárias à ocasião.

Em terceiro lugar, não somente o povo em Israel mas também a Diáspora tinham de ter conhecimento do facto. Em Israel, a informação era passada através de mensageiros que partiam a cavalo para todos os pontos, mais perto ou mais distantes. Para a Diáspora, utilizava-se um sistema bem elaborado de comunicações, que aproveitavam a escuridão da noite. No cimo do Monte das Oliveiras, uma vara de madeira com vários metros de altura era incendiada, como um archote. A sua luz era vista noutro monte pré-definido, onde, por sua vez, e utilizando o mesmo método, se passava a informação a outro monte, atingindo-se com esse método cidades tão longínquas como Pumbedita, na Babilónia, importante centro talmúdico e berço do Talmude Babilónico. Aí, a informação era recebida com alegria, manifestada por cada família através da imitação do sinal original. Isto fazia com que, de repente, numa cidade a milhares de quilómetros de distância de Jerusalém, centenas de varas flamejantes fossem erguidas na escuridão da noite, acendendo a cidade e os corações dos judeus que nela viviam.

A importância de se saber quando é que cada mês começava, estava ligada à vida de cada homem em Israel. No Salmo 104, versículo 19, encontramos a declaração de que a lua, criada por Deus, tem a particularidade de apontar para as estações do ano. Não é de admirar, pois, que fosse a regularidade da Lua a fazer de marcador natural aos tempos.

A Festa da Lua Nova
Mas a alegria que os judeus sentiam por cada novo Rosh Codesh não era um sentimento vazio. À identificação da Lua Nova seguia-se uma Festa. E esta, envolvia o próprio Deus. Daí a alegria.

A Festa da Lua Nova não pertencia ao grupo principal das três festas principais, aquelas que obrigavam a uma deslocação a Jerusalém. Era uma festa secundária, e, no entanto, igualmente importante. Podemos aquilatar essa importância pelo facto de ter sido divinamente instituída, sendo que Deus requeria do adorador uma postura espiritualmente honesta e verdadeira. Falhar de forma recorrente, levou muitas vezes Deus a manifestar o seu desagrado perante o eterno vazio a que a “religião” sempre conduz.



O Antigo Testamento apresenta-nos cerca de 25 referências à (Festa da) Lua Nova. Por exemplo, através da leitura do primeiro livro de Samuel capítulo 20, ficamos a saber que David costumava comer à mesa do Rei Saul nesse dia (20:5). E também que, ao tomar a decisão de não comparecer a esse compromisso importante, obrigou Saul a reagir de tal forma que ficou claramente exposto o ódio que ele sentia por David. Asafe, um dos cantores do Templo, proclamou a Festa da Lua Nova como tempo de alegria, assinalada com o toque do shofar (Salmo 81:3). Salomão escreveu ao Rei de Tiro informando-o que se propunha construir um Templo em Jerusalém, onde as Festas do Senhor teriam lugar, e mencionando particularmente a da Lua Nova (II Crónicas2:4). E o próprio Deus, em dada altura, mostrou-se cansado da hipocrisia de alguns adoradores, afirmando que já não suportava mais as Festas da Lua Nova que o povo celebrava e Lhe dedicava (Isaías 1:13-14).

Na Festa da Lua Nova, “… nos princípios dos vossos meses…” eram tocadas as trombetas de prata (Números 10:10), e o shofar (Salmos 81:3). Os levitas faziam as suas ofertas rituais (I Crónicas 23:31), e os negócios eram temporariamente interrompidos (Amós 8:5). Rosh Codesh, ou Lua Nova, era tempo de regozijo e celebração (Números 10:10).

O Rosh Codesh era a âncora do tempo, tanto para o homem-agricultor, como para o homem-adorador. Como procederia o homem do campo para determinar o tempo ideal de semear o seu sustento? Da mesma forma, sem um calendário claro, as festas que Deus exigia que fossem celebradas “ao tempo apontado” (Êxodo 23:15; 34:18) eram impossíveis de situar e de cumprir. Como celebrar, por exemplo, a Páscoa segundo o requisito divino, em que “no primeiro mês, aos catorze dias do mês, à tarde, comereis pães asmos até vinte e um do mês à tarde” (Êxodo12:18) se não fosse possível determinar o primeiro dia desse mês? O estratagema usado pelos opressores de Israel no tempo que antecedeu a revolta dos Macabeus foi exactamente esse: proibiam (esta) Festa, fazendo com que as (outras) Festas não fossem possíveis de celebrar, porque ficavam indeterminadas no tempo. Era, pois, uma informação vital, a que as suas vidas estavam ligadas inexoravelmente pela obediência a Deus.

As novas tecnologia tornaram obsoletos os métodos que levavam à identificação das fases da lua. Hoje, Israel não comemora mais esta festa, e apenas uma pequenina franja de judeus ortodoxos a relembra. Saber como ela se processava, no passado, é apenas um enriquecimento para nós, mas também a oportunidade de criarmos na nossa vida o desejo de renovação. Renovação em cada momento, agora e sempre. Começar de novo, recomeçar, recomeçar sempre de forma melhor. Em Jesus temos esse privilégio, o privilégio de experimentar uma renovação constante. Sem calendário. Sempre que o nosso coração quiser. Pois não foi Paulo quem afirmou que, como crentes em Jesus, “já vos despistes do velho homem com os seus feitos, e vos vestistes do novo, que se renova para o conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou.”? (Colossenses 3:9-10).

Eduardo Fidalgo   
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3 comentários:

Dilton Rodrigues disse...

essa cabeça de mês era também um marcador para encontrar o shabat por isso o shabat está perdido dentro do calendário Gregoriano. shalom

Rafael Santos disse...

Gostei muito do seu texto,realmente excelente...Parabéns,Deus o abençõe...

Hermes Silva disse...

Muito obrigado meu irmão pelo teu artigo, bem esclarecedor e que atendeu à minha dúvida. Deus te abençoe continuamente te motivando a estudar e publicar para o conhecimento do seu povo!Um abraço!