segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Tu b' Shevat

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Dia 9 de Fevereiro de 2009. Em Israel é 15 do mês de Shevat. Hoje é Tu b’ Shevat. Com ele inicia-se o chamado Ano Novo das Árvores. De forma a entendermos melhor este feriado de importância menor para os israelitas, poderíamos mencionar as suas semelhanças com o Dia da Árvore, ainda que ele não se esgote num carácter ecológico, mas tenha também um enquadramento com aspectos espirituais.

Também todas as dízimas do campo, da semente do campo, do fruto das árvores são do SENHOR; santas são ao SENHOR. Levítico 27:30
Tu b’ Shevat é o ponto médio do inverno em Israel. Shevat é o mês de grandes chuvas, em que as árvores, tendo absorvido as águas do ano anterior, tão importantes ao seu crescimento, começam a florescer e a dar fruto.
E em que dia específico devia ser celebrado Tu b’ Shevat? Espelho do que aconteceu muitas vezes no passado, esta data foi objecto de um diferendo entre as escolas de Hillel e Shammai. Sabemos que estas duas escolas – na verdade, duas correntes de pensamento – marcaram uma acentuada influência nas interpretações que deram luz (e trevas) à Torah no tempo de Jesus. Celebrado hoje a dia 15 de Shevat, ficou orientado de acordo com a escola de Hillel. Mas porquê tal desentendimento? Sendo que o Tu b’Shevat era a data-referência do início e o final do ciclo da agricultura, o dia em si classificava o que era considerado dízimo (das árvores e frutos posteriormente entregues no Templo em Jerusalém) e o que não era.

E disse Deus: Produza a terra erva verde, erva que dê semente, árvore frutífera que dê fruto segundo a sua espécie, cuja semente esteja nela sobre a terra. E assim foi. E a terra produziu erva, erva dando semente conforme a sua espécie e árvore frutífera, cuja semente está nela conforme a sua espécie. E viu Deus que era bom. Génesis 1:11-12
E plantou o SENHOR Deus um jardim no Éden, da banda do Oriente, e pôs ali o homem que tinha formado. E o SENHOR Deus fez brotar da terra toda árvore agradável à vista e boa para comida, e a árvore da vida no meio do jardim, e a árvore da ciência do bem e do mal. Génesis 2:8-9
E ordenou o SENHOR Deus ao homem, dizendo: De toda árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore da ciência do bem e do mal, dela não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás. Génesis 2:16-17

Nos dias de hoje, e ao contrário do muito do que vemos em noutras festas na terra de Israel, a celebração deste dia não se rege por normas rígidas, nem quaisquer rituais. É um dia em que o judeu mostra o seu carinho, apreciação e gratidão para com a terra, os frutos e as árvores. As árvores ocupam, aliás, um lugar muito especial e importante na relação do judeu com o mundo, e também na relação do judeu com Deus. No acto da criação, assim que a terra firme passou a existir, Deus criou as árvores. Elas foram criadas antes de qualquer animal ou do próprio homem. E quando este apareceu na terra, Deus continuou a lidar de perto com as árvores, plantando um jardim, e no centro dele uma árvore especial. O primeiro reparo divino que foi feito a Adão colocava em árvores, especialmente em duas, a expressão da sua obediência ou desobediência.
Na verdade, o homem deveria ser como uma árvore. Tal como as raízes fortes de uma árvore a ligam à terra, o homem deveria estar intimamente ligado a Deus. O tronco e os ramos, a maior parte visível na árvore, deveriam ser também no homem a analogia física, e um reflexo daquela dependência. Mas o seu verdadeiro objectivo, tal como o da árvore, deverá ser o fruto. É o fruto que alcança as gerações seguintes. É o fruto que dá a outros, que traz benefício, partilha, enriquecimento. Neste dia, medita-se sobre o que se tem posto à disposição dos outros.

Porque o SENHOR, teu Deus, te mete numa boa terra, terra de ribeiros de águas, de fontes e de abismos, que saem dos vales e das montanhas; terra de trigo e cevada, de vides, figueiras e romeiras; terra de oliveiras, abundante de azeite e mel; Deuteronómio 8:7-8
No dias de hoje, permanece o costume de comer das qualidades de frutos dos quais o antigo Israel era fértil, que foram objecto de promessa divina, e que estão expressos na passagem de Deuteronómio. São sete, e são conhecidos como as sete espécies da terra de Israel. Eram estes os frutos que eram trazidos ao Templo como primícias, e são estes ainda aqueles que não devem faltar na casa de cada família no Israel de hoje, para memória...

Quando entrardes na terra e plantardes toda sorte de árvore de comer, ser-vos-á vedado o seu fruto; três anos vos será vedado; dele não se comerá. Porém, no quarto ano, todo o seu fruto será santo, será oferta de louvores ao SENHOR. No quinto ano, comereis fruto dela para que vos faça aumentar a sua produção. Eu sou o SENHOR, vosso Deus. Levítico 19:23-25
Mas as árvores que souberes que não são árvores de comer destruí-las-ás e cortá-las-ás; Deuteronómio 20:20a

Antes de entrarem na terra Deus tinha preparado o povo de Israel para determinados procedimentos, que incluiam passos de fé na provisão divina. Herdar aquela terra trazia consigo a responsabilidade de actos práticos e concretos de obediência que se traduziam na sua dependência de Deus. Também o abate de árvores de fruto lhes estava vedado. Não é estranho para o judeu que Deus se tenha mostrado sempre com um carácter amigo da terra, verdadeiramente ecológico.
Por causa do seu fruto, a árvore tem este forte sentido de continuidade, de alcance genealógico. No dia de hoje, em Israel, as crianças em idade escolar plantam árvores. Após o estabelecimento de Estado de Israel, em 1948, Israel incrementou em força uma política de reflorestação do país. É neste dia que esse esforço tem o seu carácter simbólico, mostrando às crianças que a ideia de plantar e criar raízes está associada à vontade do povo judeu de se fixar na sua terra, como se cada homem fosse uma árvore.


Eduardo Fidalgo

Veja um pequeno filme (em português), acerca do significado do Tu b’ Shevat, numa comunidade judaica do Brasil

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