terça-feira, 26 de maio de 2009

José Brito Mendes - Um Justo Português

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José Brito Mendes,.ou Jôsef Britô-Mendess ?


Com a devida autorização da autora, a quem muito agradecemos, publicamos hoje o artigo "José Brito Mendes – Um justo português", de Esther Mucznik*, vice-presidente da Comunidade Israelita de Lisboa.A história é, só por si, um pequeno hino àquele amor que age e nunca espera nada em troca. Surpreende o facto de Portugal desconhecer este herói, que o próprio Estado de Israel, através do Museu do Holocausto – Yad Vashem agraciou em 2004, como um "Justo entre as nações". Antes dele, entre nós, apenas Aristides de Sousa Mendes foi reconhecido como um "gentio justo".
Mas existe uma razão para esse desconhecimento: José Brito Mendes, na listagem dos heróis do Holocausto com o Dossier n° 10184, consta como francês... Hilariante, bizarro, ou simplesmente natural???
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José Brito Mendes – Um justo português..Esther Mucznik *
"Espero que um dia, quando nos voltarmos a ver, o meu marido e eu reencontremos a nossa filha e voltemos a estar de novo juntos e felizes." É assim que termina uma carta escrita em 1942 por Fojgel (Fanny) Berkovic a Marie-Louise e José Brito Mendes, a quem ela confiara a guarda da sua filha Cécile, para a proteger das rusgas da polícia francesa às ordens da Gestapo. Fojgel Berkovic não realizou o seu sonho. Apenas voltou a ver a filha, de cinco anos, quando estava já por detrás do arame farpado do campo de Drancy, a caminho de Auschwitz de onde nunca voltou. Mas Cécile sobreviveu. Graças à coragem da família do português Brito Mendes.
José Brito Mendes emigrou para França em 1926, onde casou com uma francesa, Marie-Louise, e de quem teve um filho, Jacques. Viviam em St. Ouen, nos arredores operários de Paris. Mesmo em frente à sua casa vivia um casal de judeus polacos, Aron e Fojgel Berkovic, com a filha Cécile, nascida em 1937. Aron era sapateiro e tinha uma pequena oficina na mesma rua onde moravam. Daí assistia às brincadeiras de Cécile e Jacques, praticamente criados juntos naquele bairro onde se aglomeravam, na época, imigrantes espanhóis e italianos, portugueses e polacos.
Mas em 1942, a 15 de Junho, Aron é deportado e morre em Auschwitz. A sua mulher Fojgel esconde-se algures em Paris, mas antes confia Cécile à guarda da família Brito Mendes, numa tentativa desesperada de a salvar. E com efeito, meses depois, apesar de escondida, Fojgel é presa e levada para o campo de trânsito de Drancy, de onde partiam os transportes para os campos de extermínio. Antes da sua partida, José Brito leva Cécile ver a mãe uma última vez: tem já cinco anos, mas já sabe que não a pode chamar de mãe. Pela sua segurança e pela segurança de José. Tem de esconder que é judia, fingir que é prima de Jacques e que o seu nome é Bellouin – nome de solteira de M. Louise. Mas as crianças aprendem depressa…
A família Brito toma conta de Cécile, como uma filha – apesar dos cartões de racionamento e do perigo sempre iminente de uma rusga policial, porque quem esconde judeus corre o risco de ser deportado. Esta acontece efectivamente em 1943 devido a uma denúncia, mas a Gestapo não encontra Cécile, momentaneamente ausente. Para José Brito é o sinal de alarme: Cécile e Jacques são enviados para a província, onde ficam em casa de familiares do casal.
O tempo passa, a guerra acaba, os pais de Cécile não voltam e o casal Brito prepara-se para adoptar a criança. Mas do campo de concentração de Dachau chega um sobrevivente da família: um tio de Cécile, que obtém a sua guarda e a leva para os Estados Unidos, para bem longe das sombras da Europa… e dos Brito Mendes que nunca se consolarão verdadeiramente da dor da sua perda. Cécile nunca mais viu a família que a salvou. Nos Estados Unidos, mudou de nome, estudou, exerceu advocacia, casou e teve duas filhas. Voltou a França em 1987 à procura dos Brito Mendes, mas não os encontrou. Morreu sem os rever.
Jacques continuou sempre à procura da irmã perdida. Não a encontrou mas, em 2002, graças à Internet e às associações das Crianças Escondidas, descobriu as filhas de Cécile, que, embora ao corrente de que ela nascera em França e que os avós tinham sido mortos em Auschwitz, nada mais sabiam sobre o passado francês da sua mãe. "Ela não falava nunca", explica Cara, filha de Cécile. "Era a época em que ficou órfã e o sofrimento permaneceu muito vivo." Para Jacques, encontrar as filhas de Cécile foi "um vazio que se encheu com o que se tornou Cécile, a sua vida". "O tempo passou, muitos actores desta história estão mortos, mas, se os nossos filhos se conhecerem, a história continua".
Em 2004, devido aos esforços de Cara, a filha americana de Cécile, o Yad Vashem, Autoridade Nacional para a memória dos Mártires e Heróis do Holocausto, de Jerusalém, atribuiu a José e a Marie-Louise Brito Mendes o título de "Justo entre as Nações" – já desde 1967 também atribuído a outro português, Aristides de Sousa Mendes – por, "arriscando a própria vida, terem salvo judeus perseguidos durante o período da Shoah na Europa". O diploma de honra a eles atribuído refere ainda que "o seu nome será homenageado para todo o sempre, e gravado no Muro dos Justos das Nações no memorial Yad Vashem em Jerusalém".
Porquê contar hoje e aqui esta história? Em primeiro lugar, porque é uma história bonita que trata da bondade humana. Numa época em que esta era um acto demasiado solitário, em que grassava o medo ou a indiferença, a denúncia e a colaboração, não é demais lembrar que a bondade também existiu. Os Brito Mendes eram certamente pessoas simples, não foram heróis da Resistência, mas à sua maneira foram dos poucos a praticar o lema do Yad Vashem retirado do Talmude: "Quem salva uma vida salva toda a humanidade."No memorial de Jerusalém estão gravados os nomes de dois portugueses. Mas muitos mais foram sensíveis ao sofrimento de judeus e não judeus que fugiam das garras do nazismo. Segundo Avraham Milgram, historiador do Yad Vashem – a quem devo o conhecimento da história que hoje divulgo entre os leitores portugueses –, em Fevereiro de 1941, a PVDE (Policia de Vigilância e Defesa do Estado) comunicou ao Ministério dos Negócios Estrangeiros que "os consulados de Portugal em Milão, Budapeste, Bucareste e Antuérpia estão a conceder vistos em passaportes de estrangeiros, fora das instruções superiormente recebidas".O que, do ponto de vista de Milgram, mostra que o desrespeito às ordens recebidas era um fenómeno amplamente difundido nos meios consulares. Em geral, as representações consulares portuguesas eram sensíveis ao destino dos judeus. Não encontramos no arquivo histórico do Ministério dos Negócios Estrangeiros documentos que testemunhem preconceitos ou atitudes anti-semitas da parte de cônsules portugueses no exterior, da mesma forma que não havia denominador comum – ideológico ou político – entre os diplomatas portugueses que ajudaram judeus a sair da Europa via Portugal.
"A compaixão pelo sofrimento alheio, no caso dos judeus, era comum ao monárquico Aristides de Sousa Mendes, ao anti-marxista Alfredo Casanova, ao republicano Alberto da Veiga Simões, ao liberal Giuseppe Agenore Magno", escreve A. Milgram. Poder-se-ia acrescentar Sampaio Garrido e Teixeira Branquinho em Budapeste, entre outros dos serviços consulares de Portugal.
A perseguição e a destruição dos judeus produziu atitudes diametralmente opostas: o mal absoluto e a compaixão humana. Hoje, prefiro lembrar a compaixão humana na pessoa de José de Brito Mendes, um "justo" português.

Publicado no Jornal Público, em 10 de Novembro de 2006
* Esther Mucznik é vice-presidente da Comunidade Israelita de Lisboa, membro-fundador e dirigente da Associação de Estudos Judaicos e do Fórum Abraâmico, e membro da Comissão de Liberdade Religiosa. Colunista do Jornal Público, destaca-se como autora de numerosos artigos e trabalhos sobre temáticas judaicas..

Discurso do Primeiro Ministro Australiano à comunidade muçulmana

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Discurso do Primeiro Ministro Australiano

à comunidade muçulmana
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Politicamente incorrecto, ou legítimo defensor dos direitos do povo que o elegeu ???

Quem está mal que se mude e o mais rapidamente possível.
Que se acabe com a demagogia também de uma vez para sempre.
Aos Muçulmanos que querem viver de acordo com a lei do Sharia Islâmico foi-lhes dito muito recentemente para deixarem a Austrália, no âmbito das medidas de segurança tomadas para continuar a fazer face aos eventuais ataques terroristas.
Aparentemente, o Primeiro Ministro John Howard chocou alguns muçulmanos australianos declarando que apoiava agências-espiãs encarregadas de supervisionar as mesquitas da nação. Citação:


"Os imigrantes não-Australianos, devem adaptar-se. É pegar ou largar! Estou cansado de saber que esta nação se inquieta ao ofendermos certos indivíduos ou a sua cultura. Desde os ataques terroristas em Bali, assistimos a uma subida de patriotismo na maioria do Australianos.’
"A nossa cultura está desenvolvida desde há mais de dois séculos de lutas, de habilidade e de vitórias de milhões de homens e mulheres que procuraram a liberdade.’
"A nossa língua oficial é o Inglês; não é o Espanhol, o Libanês, o Árabe, o Chinês, o Japonês, ou qualquer outra língua. Por conseguinte, se desejam fazer parte da nossa sociedade, aprendam a nossa língua!
"A maior parte do Australianos crê em Deus. Não se trata de uma obrigação cristã, de influência da direita ou pressão política, mas é um facto, porque homens e mulheres fundaram esta nação sobre princípios cristãos, e isso é ensinado oficialmente. É perfeitamente adequado afixá-lo sobre os muros das nossas escolas. Se Deus vos ofende, sugiro-vos então que encarem outra parte do mundo como o vosso país de acolhimento, porque Deus faz parte da nossa cultura.’
"Nós aceitaremos as vossas crenças sem fazer perguntas. Tudo o que vos pedimos é que aceitem as nossas e vivam em harmonia e em paz connosco.
"Este é o nosso país, a nossa terra, e o nosso estilo de vida. E oferecemos-vos a oportunidade de aproveitar tudo isto. Mas se vocês têm muitas razões de queixa, se estão fartos da nossa bandeira, do nosso compromisso, das nossas crenças cristãs, ou do nosso estilo de vida, incentivo-os fortemente a tirarem partido de uma outra grande liberdade australiana: O direito de partir. Se não são felizes aqui, então partam. Não vos forçámos a vir para aqui. Vocês pediram para vir para cá. Então, aceitem o país que vos aceitou."
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sexta-feira, 8 de maio de 2009

Pesach Sheni – A Segunda Páscoa

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Pesach Sheni – A Segunda Páscoa

Constantino, o primeiro Imperador cristão, escreveu, numa mensagem ao clero presente no I Concílio de Niceia em 325 a.D. que os judeus "...não possuem a verdade na questão da Páscoa, porque, em sua cegueira ... ... frequentemente celebram duas Páscoas no mesmo ano." Pois bem, o que dizer desta afirmação? Simplesmente... que está correcta! No entanto, expliquêmo-nos melhor, já que a conclusão de Constantino não é tão linear quanto parece...
Como ponto de partida, eis um aspecto muito importante a considerar: a segunda Páscoa, ou Pesach Sheni, não é fruto de invenções da religião hebraica, nem é um ritual infundado, nem nasceu da tradição popular. Por outras palavras, os judeus, eles mesmos, não são responsáveis pela sua existência. Como surge então? Muito simples: foi Deus quem fez essa promulgação! A "segunda" Páscoa foi instituída por Deus, da mesma forma que Ele também instituiu "A" Páscoa!!!
De seguida, faremos a prova de tal afirmação. Mas antes, vamos enquadrar os factos. Tudo teve o seu início quando Israel, já livre da servidão do Egipto, em pleno deserto há um ano, se preparava para celebrar a sua redenção como povo, a libertação, a Páscoa. Deus deu, então, mais orientações para o povo. Mas, deixemos a Bíblia falar:
"E falou o SENHOR a Moisés no deserto do Sinai, no segundo ano da sua saída da terra do Egipto, no primeiro mês, dizendo: Que os filhos de Israel celebrem a Páscoa a seu tempo determinado. No dia catorze deste mês, pela tarde, a seu tempo determinado a celebrareis; segundo todos os seus estatutos e segundo todos os seus ritos, a celebrareis. Disse, pois, Moisés aos filhos de Israel que celebrassem a Páscoa. Então, celebraram a Páscoa no dia catorze do primeiro mês, pela tarde, no deserto do Sinai; conforme tudo o que o SENHOR ordenara a Moisés, assim fizeram os filhos de Israel." (Números 9:1-5)
Vemos, então, que todos os requisitos para a celebração pascal estavam a ser cumpridos pelo povo. Era a sua primeira celebração no deserto, e as determinações divinas estavam bem frescas na memória colectiva. O povo fortalecia-se. Muitos nasciam no caminho, mas a morte também não deixava de trabalhar. Na sua ceifa incessante de vidas humanas, muitos israelitas, parentes ou amigos dos que partiam, tinham-se tornado ritualmente impuros pelo contacto com esses corpos que partiam para sempre, a ponto de não poderem obedecer aos preceitos da grande festa, ou sequer de estarem presentes.
"E houve alguns que estavam imundos pelo corpo de um homem morto; e no mesmo dia não podiam celebrar a Páscoa; pelo que se chegaram perante Moisés e perante Araão aquele mesmo dia. E aqueles homens disseram-lhe: Imundos estamos nós pelo corpo de um homem morto; por que seríamos privados de oferecer a oferta do SENHOR a seu tempo determinado no meio dos filhos de Israel? E disse-lhes Moisés: Esperai, e ouvirei o que o SENHOR vos ordenará." (Números 9:6-8)
A tristeza e a frustração invadiu muita gente. Afinal, a festa da Páscoa acontecia somente uma vez por ano, e, era precisamente nessa altura que ficavam impossibilitados de a celebrar. Pior que tudo, havia a consciência de que tal acontecia sem que eles pudessem ter controlo sobre as circunstâncias. Que fazer então? Sabiamente, Moisés deixou que Deus dissesse como haviam de agir:
"Então, falou o SENHOR a Moisés, dizendo: Fala aos filhos de Israel, dizendo: Quando alguém entre vós ou entre as vossas gerações for imundo por corpo morto ou se acharem jornada longe de vós, contudo, ainda celebrará a Páscoa ao SENHOR. No segundo mês, no dia catorze, de tarde, a celebrarão: Com pães asmos e ervas amargas a comerão. Dela nada deixarão até à manhã e dela não quebrarão osso algum; segundo todo o estatuto da Páscoa, a celebrarão." (Números 9:9-12)
A solução divina não se fez esperar. Quem estivesse impossibilitado de celebrar a Páscoa por causa de uma questão de impureza ritual, ou porque não tinha conseguido chegar ao local de celebração no tempo prescrito, tinha uma segunda oportunidade para o fazer: num mesmo dia 14 do mês, também ao crepúsculo, mas no segundo mês do ano, e não no primeiro. Esta era a grande mudança: Para as pessoas que estavam naquelas circunstâncias, Deus mantinha inalterada a forma de celebrar a Páscoa, todos os requisitos enunciados no Egipto se mantinham, mas a festa avançava 1 mês.
Ora, isto muda a retórica de Constantino. Há aqui um aspecto crucial: quem tinha assistido ao primeiro evento, quem tinha estado presente no primeiro mês do ano, no 14 de Abibe, não repetia a sua celebração. Sendo assim, a afirmação do Imperador peca pela falta de precisão (ou conhecimento?): um judeu não celebrava duas Páscoas. Ele tinha, isso sim, a oportunidade de o fazer noutra data, divinamente estabelecida, se a impossibilidade não decorresse de desleixo ou falta de zelo. Era precisamente esse factor, a falta de zelo, que, pelo contrário, era fortemente punido por Deus:
"Porém, quando um homem for limpo, e não estiver de caminho, e deixar de celebrar a Páscoa, tal alma do seu povo será extirpada; porquanto não ofereceu a oferta do SENHOR a seu tempo determinado; tal homem levará o seu pecado. E, quando um estrangeiro peregrinar entre vós e também celebrar a Páscoa ao SENHOR, segundo o estatuto da Páscoa e segundo o seu rito, assim a celebrará; um mesmo estatuto haverá para vós, assim para o estrangeiro como para o natural da terra." (Números 9:13-14)

Ezequias e o "milagre" da segunda oportunidade
A Páscoa era, para os judeus, um encontro com Deus. O próprio Senhor exigia do Seu povo (Êxodo 34:18-26; Lev. 23:4-21; 33-44; Deut. 16:1-17) que viesse às festas, que não aparecesse de mãos vazias, e que viesse com espírito de agradecimento. Nesse contexto, a "segunda Páscoa" era, obviamente, a "segunda oportunidade" para o fazer. Mais do que isso, era a oportunidade para não perder a oportunidade. Pesach Sheni é inclusão, é encontro, é corpo, é aliança.
Ezequias foi um dos maiores reformadores de Israel. Quando subiu ao poder, o Templo estava fechado e servia como armazém. Os levitas estavam espalhados pelo país, cuidando dos seus próprios interesses, e tinham abandonado a sua vocação por falta de meios de subsistência. Entre os sacerdotes grassava a indiferença. Os homens, religiosos ou não, estavam longe de Deus, muito pelo exemplo que vinha do trono. Após ter limpo, purificado, consagrado e reaberto a Casa de Deus, (II Crónicas 29), Ezequias estava determinado em levar o povo a encontrar-se com Ele. Pelo facto de os sacerdotes não estarem santificados em número suficiente, a Páscoa não pôde ser celebrada no devido tempo (II Crónicas 230:1-3). Então, usaram o tempo da "segunda oportunidade", celebrando-a um mês depois (cap. 30). E a afluência foi enorme (vv.12,13). Mais do que isso, a segunda oportunidade gerou um sentimento de vergonha entre os religiosos, uma grande vontade de renovar alianças com Deus, de emendar o caminho, de retomar os compromissos abandonados (vv. 15-17).

Como cristãos, acreditamos numa realidade da Páscoa diferente desta. A nossa Páscoa não se rege por estes factores da "primeira aliança", porque entendemos ter já avançado para uma "aliança nova" em Cristo – Ele sim, a nossa Páscoa – (I Coríntios 5:7b), entendimento que os judeus não subscrevem. Os "Constantinos" modernos continuam a existir e a pregar, e a tentar desviar a nossa atenção daquilo que realmente é importante (por despeito e por desconhecimento). Daí que tenhamos de estar atentos, e a não nos deixar prender por manobras de diversão. Por isso, a boa notícia é que, pela própria natureza de Deus, o Seu cuidado para com o homem não tem fim. Os princípios de Deus, eternos e universais, cercam-nos e estarão sempre presentes à nossa volta, e é neles que nos devemos concentrar e focar os nossos olhos. Acreditamos num Deus que concede segundas oportunidades, e que, da mesma forma que o foi para Israel, Ele continua a querer ser encontro e aliança. O nosso coração, uma espécie de bússola que aponta para a direcção da "nossa verdade", está constantemente a ser monitorizado pelo Deus, que avalia as nossas intenções e os nossos propósitos. De vez em quando, quando nos afastamos da Sua verdade, a que vale, Ele tem de nos conceder uma segunda oportunidade, umas vezes por pura misericórdia, outras vezes para gerar em nós sentimentos de renovação (quiçá de vergonha), como aconteceu com os sacerdotes de Israel. De uma forma ou doutra, a Sua intenção é que caminhemos à Sua vista, bem junto d’Ele, o único lugar onde estamos defendidos dos outros e de nós mesmos.

Eduardo Fidalgo
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quarta-feira, 29 de abril de 2009

Yom HaAtzmaut – O Dia da Independência

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Comemorações dos 61 anos de independência de Israel


Yom HaAtzmaut – O Dia da Independência

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"Confiantes no Todo-Poderoso, então, assinamos esta declaração no solo da pátria, nesta cidade de Telavive e nesta sessão da Assembleia Provisória que tem lugar na véspera do Shabbat, no dia 5 de Iyar de 5708, ou seja, 14 de Maio de 1948. Levantêmo-nos para adoptar a Carta Constitucional que cria o Estado Judaico."
A assistência ergueu-se. Um rabino recitou com a voz trémula de emoção uma oração implorando a bênção de "Aquele que nos ajudou até agora". Os membros do Conselho Nacional assinaram, então, um por um, o pergaminho. Os acordes da Hatikvah ecoaram novamente pela sala, sob um silêncio profundo da assistência. Eram 16 horas e 37 minutos. Ben Gurion bateu mais uma vez sobre a mesa e declarou:
"Nasceu o Estado de Israel. A sessão terminou."
Desde aquele 5 de Iyar de 1948 até ao dia de hoje, são exactamente 61 anos. Por determinação do Knesset, desde 1949 que este é um feriado nacional. É a festa nacional do povo judeu, o dia em que foi declarado o estabelecimento de Medinat Israel, o Estado de Israel.
Tal como uma transição, uma passagem do passado para o presente, assim o Dia da Independência se segue ao Dia da Memória, que se celebrou ontem. Mas, se ontem as bandeiras estiveram a meia-haste, hoje estão no topo do mastro.
As comemorações iniciam-se no Monte Herzl, ao começo da tarde. O Monte Herzl situa-se no Centro da cidade de Jerusalém, onde se encontra um cemitério destinado a abrigar os heróis de guerra do Estado de Israel e seus chefes de estado e governo, além de ex-presidentes do parlamento.
Hoje, feriado nacional, o Dia da Independência, facilmente podemos apreciar um número invulgar de bandeiras de Israel nas janelas das cidades. Da mesma forma, há lugar para apresentações artísticas de bandas de música nos jardins e outros tipos de manifestações culturais. Fogos de artifício, paradas militares e navais, assim como a ocupação dos locais mais florestados para pic-nics familiares, tornam este dia um pretexto de convivência sadia entre todos, com a íntima consolação de viverem, finalmente, os dias em que a oração "Para o ano, em Jerusalém!" se tornou uma realidade permanente.


Eduardo Fidalgo
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Yom HaZikaron – O Dia da Memória

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Yom HaZikaron – O Dia da Memória
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A nossa era conhece Israel como país independente desde 14 de maio de 1948. Mas não remonta a 1948 a existência de Israel como nação. É muitíssimo mais antiga que isso. Abraão, considerado o primeiro judeu, é mencionado nessa condição logo no primeiro livro do Antigo Testamento (Génesis 14:13), no episódio em que se dispõe a libertar o seu sobrinho Ló, cativo de reis inimigos, numa zona muito a norte do lugar em que habitava. Isto passou-se por volta do ano 2000 a.C.. Sabe-se que os seus descendentes, entretanto multiplicados em número, se fixaram no Egipto, e que lá foram feitos escravos. E que, por volta de 1450 a.C., liderados por Moisés, empreendem o Êxodo, a viagem que os levaria ao mesmo território que hoje habitam. Com Josué, e depois com os "Juízes", Israel continuou a consolidação tanto da sua estrutura social como territorial.
No tempo de Samuel, o último dos "Juízes", ultrapassa-se o patamar da simples representação tribal (ainda que ela se mantenha), e é com Saul que se inicia o período da monarquia, num reino único e de carácter nacional. Este reino, iria, no entanto, dar origens a dois outros: Israel ao norte e Judá ao sul, após divergências internas que tiveram a sua origem em questões de impostos. O reino do norte chegou ao fim no séc. VIII a.C. e o do sul, o reino de Judá no séc. VI a.C., com Zedequias. A perda do Templo de Salomão, foi, também, a grande contrariedade para este povo, que, ainda que exilado na Babilónia, vê Ciro, rei persa, promover o regresso à sua terra, dando-lhe também garantias de liberdade na reconstrução do Templo. Caberia a Zorobabel fazê-lo, para, cerca de 500 anos depois, Herodes o aumentar e o dotar a uma opulência e dimensão proverbiais. Contudo, estas não duraram muito, já que Tito, no ano 70, se encarregou de acabar de vez com esse lugar tão significativo da vida espiritual de qualquer judeu, e ainda hoje objecto dos seus sonhos. Em 135, Adriano desfere o golpe final numa terra onde os judeus deixam de ser bem-vindos, muda-lhe o nome, muda-lhe o destino.
A partir daí, são dezoito séculos de tentativas de restauração, de reconhecimento e de regresso. São episódios de sobrevivência, de luta, de utopia, de sofrimento, de luto e de dor. Homens notáveis, resistentes, heróis e sábios nascem e desaparecem, geração após geração. Todavia, sempre, em tudo o que foi vivido e em todos os que o viveram, uma frase continuou a ecoar através dos anos, uma frase que funcionou como esperança, quando muitas vezes não havia razões para ter esperança: "Para o ano, em Jerusalém!"
Num dia em que as bandeiras ficam a meia-haste, Israel reúne-se em torno da sua memória. São lembrados todos aqueles que tombaram, todos os que sofreram e os que se sacrificaram, todos os que contribuíram para um Israel hoje possível, dentro da Terra ou na Diáspora. Todos os soldados, civis, homens, mulheres e crianças que ajudaram a construir Israel com o seu sangue. Num gesto de reconhecimento todo o país pára e fica em silêncio. Por dois minutos, como se de um único e grande shoffar se tratasse, as sirenes lamentam-se. Israel lembra-se e está grato.


Eduardo Fidalgo
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segunda-feira, 27 de abril de 2009

Novo DICIONÁRIO DO JUDAÍSMO PORTUGUÊS

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NOVO > Dicionário do Judaísmo Português

500 entradas diferentes, 582 páginas, uma equipa de 65 investigadores estudou a presença judaica em Portugal e os judeus de origem portuguesa no mundo. O resultado é este 'Dicionário do Judaísmo Português', obra com coordenação de Lúcia Liba Mucznik, José Alberto Tavim, Esther Mucznik e Elvira de Azevedo Mea.
Além de personagens e factos históricos, desde o século V, o livro contém entradas sobre festas religiosas, rituais e instituições. Inclui um glossário de termos hebraicos e índices onomástico e geográfico.
«O Dicionário do Judaísmo Português que agora se apresenta, procura dar uma imagem abrangente e sistematizada da presença judaica em Portugal e da presença e actividade dos judeus de origem portuguesa no mundo», esclarecem os coordenadores da obra. «O nosso objectivo é reunir e divulgar de forma sintética conhecimentos actuais sobre o assunto, e proporcionar ao público em geral um instrumento de referência até aqui inexistente», adiantam.
Cada entrada remete para uma bibliografia essencial que o leitor interessado em explorar o tema de forma mais ampla pode consultar. «Conscientes de que o tema é bastante vasto e complexo, esperamos que esta obra contribua para suscitar o interesse e o desenvolvimento dos estudos judaicos em Portugal e, em geral, sobre os judeus portugueses», referem os responsáveis.

Editorial Presença
P.V.P.: 45,00 €
Data 1ª Edição: 07/04/2009
Nº de Edição:
ISBN: 978-972-23-4092-2
Nº de Páginas: 584
Dimensões: 185x245mm
Peso: 1340g
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terça-feira, 21 de abril de 2009

Dia do Holocausto - A Memória e o Futuro

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Dia do Holocausto – A Memória e o Futuro

21 de Abril de 2009. Dia que recorda o Holocausto. Completa-se mais um ano. Israel pára. Não há cidade em Israel, nem rua, nem prédio nem família que não tenha sido afectada, directa ou indirectamente, pelo Holocausto, há mais de 60 anos. Não é um dia de comemorações, mas um dia para lembrar os que partiram, alegrar-se com os que conseguiram sobreviver, e ensinar aos mais novos as teias que a História teceu. Sobretudo, é um tempo para todos juntos dizerem: NUNCA MAIS.
A prova que trouxeram do inferno lê-se em braços marcados com números. A simples menção do Holocausto ainda dói, quanto mais falar sobre ele. Dói ainda mais, porém, quando alguns dentro da própria sociedade dizem duvidar que ele alguma vez tivesse acontecido.
Um dia, todos terão partido. Ficará a sua doce memória e o testemunho possível. Mas ficarão outros homens. Uns, capazes de cometer as mesmas atrocidades. Outros capazes de lhes sobreviver. Para que isso não aconteça, como homens, associêmo-nos e digamos também: Holocausto, NUNCA MAIS!!!
Eduardo Fidalgo

– Número estimado de mortos: 50 milhões
– Vítimas Militares:
20 milhões
– Vítimas Civis:
23 milhões
– Judeus mortos:
6 milhões
– Mortos entre a comunidade de ciganos, Testemunhas de Jeová,
homossexuais, dissidentes políticos, deficientes:
1 milhão
– Crianças judias mortas: 1,5 milhões


Tribunal de Nuremberg
Declarações de Rudolf Franz Ferdinand Hoss

Comandei em Auschwitz desde 1 de Dezembro de 1943 e calculo que, pelo menos, dois milhões e meio de pessoas foram mortas nas câmaras de gás, outro meio milhão morreu de fome e doenças. o que faz um total de três milhões de mortos. Este número representa setenta a oitenta por cento de todos aqueles que eram destinados a Auschwitz, pois o resto foi destinado a trabalhar na indústria de armamento ou nas indústrias situadas em outros campos de concentração. Nós matámos, no Verão de 1944, uns 400.000 judeus húngaros em Auschwitz.
O comandante do campo de Treblinka disse-me que tinha morto 80.000 no decorrer de meio ano. A sua missão principal consistia em exterminar todos os judeus procedentes do ghetto de Varsóvia. Usava gás de monóxido, mas não estava muito satisfeito com
o resultado do mesmo. Por este motivo, quando construí o campo em Auschwitz decidi-me pelo Zyklon B que introduzíamos nas câmaras por uma pequena abertura nas mesmas. Segundo a temperatura que fizesse, as vítimas demoravam de cinco e quinze minutos a morrer. Sabíamos que haviam morrido quando deixavam de gritar. Esperávamos aproximadamente meia hora antes de abrir a porta e retirar os cadáveres. Os nossos soldados tiravam os anéis e os dentes de ouro às vítimas.
Outra melhoria com respeito a Treblinka foi a de construirmos câmaras de gás nas quais podíamos introduzir 2.000 pessoas ao mesmo tempo, enquanto que as dez câmaras de gás de Treblinka admitiam só duzentas pessoas de cada vez. O modo como seleccionávamos as nossas vítimas era o seguinte: Em Auschwitz trabalhavam dois médicos das SS que examinavam todos os que chegavam ao campo. Os prisioneiros deviam desfilar perante um dos médicos que, imediatamente, adoptava uma decisão. Os aptos para o trabalho eram destinados outra vez ao campo, os outros directamente às câmaras. As crianças de curta idade eram sempre destinadas à morte, visto que devido à curta idade não podiam trabalhar. Com frequência, as mulheres queri
am ocultar os seus filhos sob as suas roupas, mas quando o descobríamos mandávamos imediatamente as crianças para as câmaras. Queríamos que toda a acção fosse mantida em segredo, mas o cheiro originado pela incineração dos cadáveres inundava toda a região...»
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Aristides de Sousa Mendes

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Aristides de Sousa Mendes

Infância e adolescência
O ano de 1885 vê nascer em Cabanas de Viriato, Distrito de Viseu, Aristides de Sousa Mendes do Amaral e Abranches, e seu irmão gémeo, César. São filhos de Maria Angelina Ribeiro de Abranches e do juiz José de Sousa Mendes. A sua infância e juventude foi a típica de jovens sem problemas económicos, inteligentes e com acesso fácil à educação. Dessa forma, não foi de estranhar que, com 22 anos, ambos se tivessem licenciado em Direito na Universidade de Coimbra e depois seguissem a carreira diplomática. Aos 23, Aristides casa com a sua prima Angelina. O casal viria a ter 14 filhos.


A carreira política
Em 1910, Portugal vê nascer a República. Aristides é nomeado Cônsul em Demerara, Guiana Francesa. No ano seguinte, e até 1916, é Cônsul em Zanzibar, onde, no entanto, enfrenta problemas de saúde, aliás, da mesma forma que toda a família. Senhor de ideais monárquicos não escondidos, é castigado por causa deles, logo a seguir ao final da I Grande Guerra. Com trinta e seis anos dirige, de forma temporária, o Consulado de S. Francisco da Califórnia, cidade onde nasce o seu 10.º filho, e três anos mais tarde, torna-se Cônsul em S. Luís do Maranhão (Brasil). Depois, passa a dirigir, de forma interina, o Consulado de Porto Alegre (Brasil).
Em 1926, está novamente em Lisboa, desta vez para prestar serviço na Direcção-Geral dos Negócios Comerciais e Consulares, quando tem lugar a revolução militar do 28 de Maio conduzida pelo Marechal Gomes da Costa. Já em estado de Ditadura Militar, é nomeado Cônsul em Vigo (Espanha). No ano seguinte, Portugal vê ser nomeado Ministro das Finanças um homem que anos mais tarde tornaria a vida de Aristides num pequeno inferno: António de Oliveira Salazar. Entretanto, passa pela Bélgica, como Cônsul-geral em Antuérpia. No ano seguinte, consequência não só da conjuntura social mas também pelas qualidades que vinha demonstrando, Salazar torna-se Presidente do Conselho de Ministros do Governo de Portugal. Estava-se longe de imaginar que dentro daquele homem germinava o espírito de um ditador. E, ei-lo que dois anos mais tarde, nomeia Aristides de Sousa Mendes como Cônsul de Portugal em Bordéus. E essa é a nomeação vital para o trabalho que viria a desenvolver.


Surge um Homem ousado
A Península é pródiga em acontecimentos políticos, dentro do formigueiro político em que a própria Europa se tornou. Salazar e Franco assinam o Pacto Ibérico, e, a Alemanha de Hitler invade a Polónia, dando início à II Guerra Mundial. Já a caminho de um controlo absoluto da máquina governativa, Salazar chama a si a pasta de Ministro dos Negócios Estrangeiros, para além da Presidência do Conselho, que já detinha. E é então que o Cônsul em Bordéus, Aristides de Sousa Mendes, contrariando as ordens expressas do ditador, passa mais de 30.000 vistos a judeus e outras minorias perseguidas pelos nazis. Salazar não lhe perdoa nunca, porque não era homem para perdoar. Condena Sousa Mendes a um ano de inactividade profissional, para depois simplesmente e sem mais explicações o aposentar de forma compulsiva, e sem qualquer vencimento.



O princípio do fim
Em 1945, a II Guerra Mundial termina com a vitória dos Aliados. Várias são as cartas que Aristides de Sousa Mendes dirige então à Assembleia Nacional, reclamando (em vão) contra o castigo que lhe fora imposto pelo Governo. E tenta, de muitas outras formas, e por outras interpostas pessoas, sem sucesso, que o poder o reabilite, já que com família ainda a seu cargo, e sem salário, é com grandes dificuldades que sobrevive. O recheio da casa aristocrática da sua infância foi vendido peça a peça, e a própria propriedade acabou em miséria. Os últimos anos foram de dificuldade extrema, enquanto uma sociedade política, outrora solidária, lhe virava as costas. Os golpes duros sucederam-se, e, em 1948 morre a sua esposa, Angelina. Um fim triste aproxima-se a passos largos. Pobre, isolado, solitário, doente, extremamente doente, Aristides de Sousa Mendes, morre, em Lisboa, no Hospital da Ordem Terceira, a 3 de Abril de 1954. A classe política, embora caída a ditadura, só em 1988 reconheceu as suas razões. A Assembleia da República e o Governo português procederam, finalmente, à reabilitação oficial de Aristides de Sousa Mendes.
Após a sua morte, um dos seus filhos, Sebastião, escreveu: "Haja o que houver, reivindico orgulhosamente o facto de ter tido a felicidade de ser gerado por um homem desta estatura moral." Nós todos, portugueses, e da mesma forma, deveríamos reivindicar a felicidade e o orgulho de sermos seus compatriotas.
Eduardo Fidalgo
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A LISTA de Aristides de Sousa Mendes - As homenagens de Israel

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.A LISTA de Aristides de Sousa Mendes

As homenagens de Israel


— "Como é que se chama aquele senhor que, em Bordéus, nos passou os vistos para podermos chegar a este país?"
— "Chama-se herói, filho. Quem faz o que ele fez por nós só pode ter esse nome."
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Se quisermos ter uma ideia do reconhecimento que os judeus dispensaram aos actos de Aristides de Sousa Mendes em favor do seu povo, é certo que não os devemos procurar em primeiro lugar na terra de Israel. Isso porque os primeiros e os mais genuínos agradecimentos vieram dos que estiveram em Bordéus, no centro destes acontecimentos. A angústia daqueles milhares de refugiados em França era tão grande, – não só em virtude das fronteiras que se lhes fechavam, mas também devido ao facto de se verem literal e estrategicamente empurrados para a Alemanha – que fez deles pessoas grandemente agradecidas e com uma percepção perfeita da dimensão dos feitos de Aristides. O grande agradecimento começou em cada um dos que tiveram o privilégio de receber das mãos do cônsul o visto para a liberdade. José Jorge Letria, em "Contos de um mundo com esperança", expressa bem essa realidade, ao fixar o diálogo entre uma criança e o pai, ambos em terras lusas, e já longe do pesadelo nazi:
— "Como é que se chama aquele senhor que, em Bordéus, nos passou os vistos para podermos chegar aqui?"
— "Chama-se herói, filho. Quem faz o que ele fez por nós só pode ter esse nome."
Com a carreira de diplomata totalmente destruída por causa da opção que tomara, a vida não se tornou fácil para ele nem para a sua numerosa família. As represálias vindas da primeira figura do poder político em Portugal não se fizeram esperar, e os recursos passaram a escassear de forma dramática. Já próximo dos últimos dias, as três refeições diárias tornaram-se impossíveis de satisfazer. "Tinham falta de tudo, até de leite para o pequeno-almoço" 2.
É então que novamente os corações judaicos lhe agradecem. A Comunidade Israelita de Lisboa estipulou uma verba mensal para ajudar Sousa Mendes, permitindo-lhe que pudesse comer na respectiva cantina, juntamente com a esposa e os seus filhos. São inúmeros os testemunhos dos que ali se cruzaram com ele.
Mas, a atitude irredutível de Oliveira Salazar, abriu a Sousa Mendes as portas à pobreza, que se abateu sobre ele de forma irreparável. Nessa tarefa, Salazar foi o obreiro-maior, aquele que o encaminhou para um fim de solidão e angústia, totalmente imerecidos para quem fez tanto pelos outros, e nada tendo pedido em troca. Sousa Mendes morre a 3 de Abril de 1954, em Lisboa.


Em Israel, David Ben Gurion, primeiro-ministro do país recém-formado, acaba por tomar conhecimento dos actos deste homem em favor do seu povo. As informações vieram pela voz de judeus norte-americanos salvos por Sousa Mendes, mas as palavras eram de duas das suas filhas, que, lutavam agora para reabilitar a memória do pai. E é em 1961 que recebem a notícia de que uma árvore evocativa dessa memória iria ser plantada no centro Yad Vashem, em Jerusalém. Com efeito, o acto teve lugar a 21 de Fevereiro. Yad Vashem, o Museu do Holocausto, é responsável por investigar as informações que lhes chegam acerca de homens e mulheres que, arriscando a sua própria vida, salvaram judeus no âmbito da Segunda Guerra Mundial, arrancando-os muitas vezes aos fornos crematórios dos campos. A esses homens e mulheres, Israel atribui o título de Gentio Justo. Desta forma, Aristides de Sousa Mendes torna-se no primeiro Justo entre as Nações, o título de maior reconhecimento que Israel atribui aos não-judeus.
Em 1966, o mesmo Yad Vashem toma a iniciativa de cunhar uma moeda comemorativa, onde se lê: "A Aristides de Sousa Mendes, o povo judeu reconhecido." No verso da medalha, a inscrição do Talmude: "Quem salva uma vida, salva a Humanidade."
No sul de Israel, no Neguev, foram plantadas 10.000 árvores em memória de Aristides: uma árvore por cada judeu que se estima que ele salvou. Ao norte, a cidade de Tel-Aviv também o recorda, num bairro nobre da cidade, onde há uma rua com o seu nome.
Na Bíblia, no livro de Provérbios, em 3:27 lê-se: "Não detenhas dos seus donos o bem, estando na tua mão poder fazê-lo." Felizmente que Israel soube dizer "obrigado".

"Mas estes judeus, que ainda estão vivos graças ao sacrifício dele, são uma homenagem à sua acção. Se cada um se recordar do homem que lhe prestou socorro, e viver uma vida inspirada nos princípios de Sousa Mendes, terá conseguido tornar realidade o sonho dele." (Harry Ezratty, in Jewish Life).

Eduardo Fidalgo


1 in "Contos de um mundo com esperança", José Jorge Letria, Lisboa, Texto Editora, 2003, Excertos adaptados
2 in "Aristides de Sousa Mendes, Um Herói Português", José-Alain Fralon, Editorial Presença, p. 96.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

O Cônsul Ousado

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Aristides de Sousa Mendes - O Cônsul Ousado

"A única coisa necessária para que o mal triunfe, é que os homens não façam nada." – Edmund Burke (1729 - 1797)

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Era chegada a altura de Aristides de Sousa Mendes tentar o impossível.
Recordou-se que, quando regressava a Portugal de carro, para evitar os engarrafamentos na ponte entre Hendaia e Irun, costumava passar a fronteira franco-espanhola num outro sítio.
Por que não havia de tentar novamente?
Mandou os refugiados que o rodeavam seguirem-no. Conduzia o carro devagar. O estranho cortejo chegou a um posto fronteiriço, cujos soldados ficaram a olhar para eles, embasbacados. Felizmente não dispunham de telefone, nem tinham ainda recebido as novas instruções de Madrid acerca do encerramento das fronteiras.
Sousa Mendes, do alto sua sua imponência – e continuava a tê-la, apesar das roupas amarfanhadas, dos sapatos cheios de pó, do rosto cansado, dos cabelos despenteados – disse aos espanhóis: "Sou o cônsul de Portugal, estas pessoas viajam comigo, todos têm passaportes em boa e devida forma, como podem verificar; sejam então simpáticos e deixem-nos passar".
O incrível aconteceu: Passaram.
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in "Aristides de Sousa Mendes – Um Herói Português", José Alain Fralon, pp. 73-74, Editorial Presença
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Veja este pequeno filme
É a reconstituição deste episódio verdadeiro!!!

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Aristides de Sousa Mendes - Para que nos servem os Heróis?

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Para que nos servem os heróis?

Momentos que não são ficção



Jerusalém, Fevereiro de 2005, Museu do Holocausto, Yad Vashem. São 10 horas da manhã, e no imenso edifício em que se situam os serviços de acolhimento aos visitantes, algumas centenas de pessoas já se cruzam, preparando-se para a visita, ou complementando-a desde logo com informações que retiram dos expositores, apresentados em vários idiomas. No entanto, a cena mostra-se bastante irreal. Porque, embora as pessoas sejam em número elevado, e o movimento seja vivo, a impressão que tenho é a de que estou a assistir a um filme mudo, ou então que ensurdeci de repente. Na verdade, ainda que a maior parte dos visitantes sejam jovens e adolescentes de escolas em visita de estudo, propensos a uma actividade naturalmente mais solta, o certo é que o ruído produzido é mínimo, quase parecendo que alguém rodou um hipotético botão do volume na sala. Respira-se respeito. Não posso deixar de pensar que muitos daqueles miúdos de mochila às costas irão ver o seu nome de família escrito em algumas paredes e memoriais do Museu, pela pior das razões: eles viveram o Holocausto.
No balcão de informações, atende-me uma senhora com um sorriso q.b., o necessário e suficiente. Pergunto-lhe em que parte dos jardins fica "a árvore de Aristides de Sousa Mendes". Olha-me, lança um "Ôh!" involuntário que a parece transportar para um plano de maior respeito ainda, enquanto mergulha num mapa do Museu. Entendeu que venho por Aristides, porque também sou português. E, enquanto me traça num mapa, com uma esferográfica, o caminho que terei de fazer até à árvore (ver foto) , amavelmente vai falando do homem que, das 30.000 vidas que salvou, cerca de 10.000 pertenciam ao seu próprio povo.


Lisboa, Julho de 2008, átrio da estação do Metropolitano do Parque. São 8 horas da manhã, e o átrio da estação é cruzado em todas as direcções por passageiros que começam o seu dia de trabalho. À direita de quem entra, a meio caminho das bilheteiras, uma coluna de pedra com sensivelmente um metro e oitenta de altura chama a atenção pelo buraco que a atravessa de lado a lado quase à altura dos olhos. Iluminada por uma lâmpada que aponta para o interior do bloco, é possível ver-se uma medalha que ostenta o nome de Aristides de Sousa Mendes.
De máquina fotográfica em punho, sou logo marcado por uma solícita funcionária que me informa que "as fotografias dentro das instalações do Metro não não permitidas". "São ordens!". Obediente, guardo a "arma", e passo à abordagem da "informação". "Por que está a medalha ali?", "Há alguma relação de Sousa Mendes com o Parque?". "Porquê o Metro?" *. A funcionária vai justificando que "trabalha ali há já algum tempo, mas que não sabe muito acerca daquele senhor". A conversa torna-se difícil, porque, para além da evidente esterilidade que a rodeia, as pessoas que entram no átrio persistem em querer atropelar-nos. Afastamo-nos para um canto, para me aperceber então que não sendo mais nós o estorvo, passou a sê-lo a coluna, que, entretanto, aguentava firme no meio do caminho dos que queriam servir-se das máquinas. Não pude deixar de notar que, durante toda esta aventura, ninguém parou ou sequer abrandou, com curiosidade para se certificar do conteúdo da coluna de pedra. E alguns questionários improvisados acerca do assunto, mostraram-me que quase ninguém sabe que naquele átrio se encontra uma medalha de homenagem a Aristides de Sousa Mendes.
O mais fora do edifício que me foi possível, tirei um boneco da "homenagem portuguesa" a este nobre português (ver foto). Pobre Aristides. Em Israel é um herói (re)conhecido. No seu próprio país, é um "atraso de vida". Pobres de nós...

Eduardo Fidalgo



* No 26 de Março de 1995, em Lisboa, a Fundação, "Pro Dignitate" e a administração do Metropolitano de Lisboa homenagearam Aristides de Sousa Mendes, na Estação Parque. Com efeito a estação é dedicada à Declaração Universal dos Direitos do Homem. O Memorial está situado no átrio de entrada da estação. Esta obra, da autoria do escultor João Cutileiro, consiste numa coluna paralelipipédica em pedra-lioz contendo, no interior de uma abertura cilíndrica que a atravessa de lado a lado, uma medalha representando a silhueta de "um Homem Só" simbolizando a cruzada solitária da figura heróica que foi Aristides de Sousa Mendes.
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Aristides de Sousa Mendes - Livros Recomendados

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Alguns livros recomendados


Aristides de Sousa Mendes – Um Justo Contra a Corrente
Autor: Miriam Assor
Edição/reimpressão: 2009
Páginas: 176
Editor: Editora Guerra & Paz
ISBN: 9789898174307
Preço (Estimado): 19,80 euros

Aristides de Sousa Mendes – Um Herói Português
Autor: José Alain Fralon
Edição/reimpressão: 2007
Páginas: 128
Editor: Editorial Presença
ISBN: 9789722325028
Preço (Estimado): 9,98 euros


Aristides de Sousa Mendes – Herói do Holocausto
Autor: José Ruy
Edição/reimpressão: 2005
Páginas: 32
Editor: Ancora Editora
ISBN: 9789727801374
Preço (Estimado): 9,90 euros


Aristides de Sousa Mendes - Homem de Coragem
Autor:
José Jorge Letria
Edição/reimpressão: 2004
Páginas: 56
Editor: Terramar
ISBN: 9789727103676
Preço (estimado): 4,50 euros

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sábado, 11 de abril de 2009

A Páscoa em Israel

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Este artigo olha para uma Páscoa no seio de uma família judaica tradicional. O objectivo é o de dar a conhecer essa Páscoa diferente, e não o de criar qualquer tipo de comparaçóes ou polémicas. Por isso, evitam-se propositadamente muitos detalhes da festa e da profundidade dos símbolos que ela encerra.
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A Páscoa em Israel

De todas as três grandes festas judaicas, Páscoa, Pentecostes e Tabernáculos, a Páscoa é, sem dúvida, a que tem uma vertente familiar mais vincada. Era na Páscoa, na cidade de Jerusalém, que a família se juntava como um corpo unido, como organismo vivo, como o núcleo de uma nação que se erguia. Por isso, ainda no Egipto, ao instituir esta celebração (Êxodo 12), Deus foi muito claro, orientando o povo no sentido de que o cordeiro – o símbolo central da festa – deveria ser suficiente para a refeição de uma família. Mas, no caso de esta ser pequena demais, então ela deveria convidar outra, a fim de que o número de pessoas fosse suficiente para se consumir totalmente o cordeiro (Êx. 12:3b-4).
Desde então, desde há quase 35 séculos, a cada ano que passa, as famílias judaicas reunem-se em torno do cordeiro pascal, sejam elas grandes ou pequenas, estejam elas em Israel ou na Diáspora. Continuam a fazê-lo exclusivamente na mesma data que o Senhor então lhes ordenou: o crepúsculo do dia 14 do mês de Abibe. As múltiplas perseguições, os pogroms, os ghettos, a Inquisição ou o Holocausto nunca foram suficientes para apagar nestes filhos de Abraão a memória da sua amada Páscoa. Páscoa, Pesach em hebraico, que significa "passar por cima", "redenção". E o facto de o terem feito centenas de vezes em condições tão adversas, o paradoxo de erguerem as mãos para celebrarem uma liberdade histórica que muitas vezes lhes estava negada no próprio momento, tem feito deles um povo forte a quem as maquinações mais diabólicas não têm conseguido resistir.
A história de sacrifício do povo judeu orientou-o a juntar símbolos à Páscoa que a Páscoa do Egipto não viu. E essa nova visão teve sempre como objectivo maior o de explicar a cada um deles as razões de ainda estarem vivos. Por isso, o Seder é também uma festa de sobrevivência. Na verdade, não é uma refeição, e não se pretende que deva ser encarado como tal. O Seder é um tempo de partilha, de explicação, de discussão e de transmissão da história de redenção de um povo agradecido, e que quer continuar a existir.
Evoca-se, pois, aquela ceia da noite em que os primogénitos judeus foram poupados (Êx. 12:23) enquanto todo o Egipto gemia debaixo da acção do Destruidor. Como se disse, o Seder, que significa "ordem", no sentido de "sequência", deixou de ser uma ceia como a original. Já as famílias não comem de pé, nem à pressa, nem de cajado na mão, e nem de sandálias nos pés (Êx. 12:11). Porque este povo já não é escravo de nenhum outro povo. Este Seder é celebrado por um povo livre. E um povo livre não tem pressa, nem motivos para fugir. Enquanto come, um povo livre descansa em almofadas confortáveis, e reclina-se sobre o seu lado esquerdo, o do coração, enquanto saboreia com ele a sua liberdade.
Nesta noite, a mesa é surpreendente. Há lugar para o pão sem fermento (Matzah), vinho, e pequenas tigelas com água salgada ou vinagre. Num soberbo prato maior, primorosamente decorado nos dias de hoje, vários elementos figuram como símbolos de alguns capítulos desta história tão trágica como sobrenatural, de Israel: um osso de cordeiro, um ovo cozido, verduras (salsa, rabanetes, aipo, agrião ou batata), ervas amargas, (alface ou rábano) e uma mistura espessa composta de tâmaras, maçãs, amêndoas e nozes trituradas, aromatizadas com vinho doce e canela.
No Seder de hoje, o cordeiro já não está amplamente presente, mas apenas representado. Isto porque sem Templo em Jerusalém não é possível que os sacrifícios levíticos possam ter lugar. Um osso da tíbia de um cordeiro, é tudo quanto resta da memória primitiva. No entanto, continua a ser ele o elemento maior sobre o qual a redenção assenta.
Os pães asmos são um símbolo dos que valorizam o abandono do Egipto, daqueles que tiveram a coragem de deixar o fermento para trás. O fermento, que representa todas as doutrinas venenosas e legalistas, capaz de levedar toda a massa. Durante sete dias, ele está banido das vidas dos judeus, tal como foi ordenado pelo Senhor no final do tempo de escravidão. (Êx. 12:18-20). Para Israel, começar uma vida nova implicava então que o fermento espiritual estivesse ausente, e isso tinha de ser demonstrado de uma forma prática e simbólica. Milhares de anos depois, os seus filhos continuam a honrar esse princípio, elegendo a Páscoa ano após ano como um tempo de novos começos, de onde os conceitos duvidosos são arrancados.
Com um pouco de alface que se mergulha na mistura de tâmaras, maçãs, amêndoas e nozes, se saboreia a lembrança da cor e da consistência do barro e dos tijolos do Egipto. O Charoseth, assim se chama esta pasta espessa, traz-nos à memória a aflição dos escravos hebreus obrigados a construir as grandes cidades de Faraó. Hoje, a sua presente liberdade, não os isenta da obrigação de honrar os que pereceram, ao mesmo tempo que dão valor à sua condição actual.
Mergulha-se a salsa ou o agrião na água salgada, e prova-se. A água salgada relembra as lágrimas do povo vertidas não só no Egipto, mas ao longo de toda a sua história. E as verduras, que nos remetem para a frescura e doçura da primavera, não podem ocultar o gosto amargo que todo o judeu tem sentido durante os séculos de existência contrariada e vexada por outros homens.
Essa resistência é simbolizada pelo ovo que tem parte nesta mesa pascal. Porque, se quase todos os alimentos se tornam mais macios quando são continuadamente cozinhados, isso não acontece com o ovo. Ao contrário de qualquer lógica, quanto mais ele é sujeito à cozedura, mais duro se torna. E isso é uma figura do povo de Israel. A fornalha em que se habituou a viver tem feito dele um povo sobrevivente e cada vez mais forte. Na sua História, quando parece que tudo está perdido, há sempre uma porta que se abre, ou uma solução que nasce.
Nesta noite palpita um só coração judaico, que tem transmitido vida aos mais novos, de geração em geração. Porque elas, as crianças, estão sempre presentes. E espera-se que elas façam as 4 perguntas do preceito da festa, aquelas mesmas perguntas que os seus pais, e os pais dos pais têm feito ao longo dos séculos. Os mais velhos, esses aguardam, ansiosos por responder e fazer a ponte com o passado. Indagam, então, as crianças:
"Em todas as outras noites podemos comer pão com fermento ou pão ázimo. Por que é que nesta noite só comemos pão ázimo?"
"Em todas as outras noites costumamos comer toda a espécie de verduras. Por que é que nesta noite só comemos ervas amargas?"
"Em todas as outras noites não molhamos as verduras. Por que é que nesta noite as molhamos duas vezes?"
"Em todas as outras noites costumamos comer sentados ou reclinados. Por que é que nesta noite só comemos reclinados?"
O Templo, o de Salomão ou o de Herodes, há muito que já não existem. E embora o desaparecimento de cada um deles tivesse sempre trazido consigo o abandono forçado da terra e o exílio, o coração do judeu nunca deixou a Terra de Israel. E tem sido esse coração o grande guardião de uma esperança que nunca morre. Durante cerca de 1900 anos, em cada festa da Páscoa, no seio de cada família, ainda ecoa e continuar-se-á a ouvir a declaração que também é uma oração: "Para o ano, em Jerusalém!".
Eduardo Fidalgo
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quarta-feira, 8 de abril de 2009

A Igreja no mundo

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"No início, a igreja era um grupo de homens e mulheres centrados no Cristo vivo.
Então, a igreja chegou à Grécia e tornou-se uma filosofia.

Depois, chegou até Roma e tornou-se uma instituição.

Em seguida, à Europa, e tornou-se uma cultura.

E finalmente, chegou à América,e tornou-se
business."


Pr. Richardson Halverson, capelão do senado americano

O túmulo vazio - ... quando foi?

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Este ano a Páscoa é a um domingo! A afirmação afigura-se como uma piada, uma vez que a Páscoa é sempre a um domingo. No entanto, nem sempre foi assim. Na verdade, durante os quase 300 primeiros anos do Cristianismo, Pedro, Paulo, Tiago, João e os outros apóstolos, todos os pais da Igreja e os primeiros crentes em Jesus celebraram sempre a Ressurreição do Senhor de acordo com um calendário que a fixava no terceiro dia contado a partir do 14 de Abibe, o primeiro mês do calendário judaico. Este dia, 14 de Abibe ou Nisan (nome de herança babilónica), era, por sua vez, o enquadramento histórico da libertação de Israel do Egipto. Na verdade, a ressurreição de Jesus – a redenção –, libertação espiritual de todo o homem, é o cumprimento perfeito, espiritual e profético em Jesus daquela libertação há cerca de 3.500 anos atrás. A Ressurreição é o evento que lança luz sobre aquele outro, que foi, no fim de contas, uma sombra das coisas que haviam de vir.

No entanto, no ano 325 a.D., o Imperador Constantino escreveu uma carta ao clero presente no I Concílio de Niceia, no sentido de a Igreja (já então a emergente como a Igreja Católica Romana que hoje conhecemos) se demarcar da Páscoa no tempo apontado por Deus. É no reflexo dessa carta que a igreja ainda vive hoje. Mesmo a igreja evangélica. Sem qualquer intenção de rebater os (pobres e infelizes) argumentos expostos por Constantino, não deixarei, contudo, de chamar a atenção para alguns detalhes que a conspurcam.
Os argumentos que evocava, são argumentos que ainda hoje surgem na difamação de tudo o que é judaico: Anti-semitismo, e distorção do contexto das escrituras que são citadas, ou a ignorância acerca das mesmas.

Vejamos acerca do anti-semitismo: ontem como hoje, ele estava implantado no mais íntimo de uma igreja que foi chamada a amar e a pregar o evangelho a todas as nações (Marcos 13:10). Mas a Igreja tem-se sentido no direito de escolher as nações a quem prega. Ontem como hoje, essa "igreja espiritual" ama os amigos mas odeia os inimigos (históricos), caindo na atitude hipócrita que Jesus denunciou em Mateus 5:46-47. Em parte alguma desta carta se vê o interesse do Imperador em dar a conhecer o Messias aos judeus. Pelo contrário, a carta destila ódio e desprezo contra eles, encimados pelo argumento do "assassínio de Jesus-Deus": o deicídio! Isso, como se a morte do Messias tivesse sido uma conspiração humana bem sucedida, para a qual o próprio Deus não teve capacidade de se opôr. Como se Jesus tivesse exagerado ou mentido quando afirmou: "...dou a minha vida para tornar a tomá-la. Ninguém ma tira de mim, mas eu de mim mesmo a dou; tenho poder para a dar e poder para tornar a tomá-la..." João 10:17-18.
Sintomático também é o facto de, numa carta em que os judeus são tão enxovalhados, em lugar algum ser mencionado que o próprio Jesus, Ele mesmo, é um Judeu, como se isso fosse fruto de uma coincidência da terra, de que o Céu estivesse refém.

No que diz respeito às escrituras citadas, note-se a ignorância em relação às mesmas, ignorância que se traduz no argumento lançado sobre os judeus de que eles celebravam duas Páscoas. Realmente, a haver um visado, nunca poderiam ser eles, mas sim o próprio Deus. Isso porque, a segunda Páscoa, era, nem mais nem menos a segunda oportunidade que Deus criou para os judeus que não tinham podido assistir no mês de Abibe à (única) Páscoa, pudessem trazer a Jerusalém as suas ofertas e, como membros do corpo de Israel, reforçassem os laços espirituais com o seu Deus. É óbvio, no entanto, que o sacrifício de Jesus foi perfeito e suficiente. Aqueles, pois, que crêem no Seu nome, não têm necessidade de acrescentar mais nada a este sacrifício. Deste modo, a segunda Páscoa esgota-se no Israel bíblico. Não se pense, porém, que a ignorância em relação às coisas de Israel e da Bíblia morreu com Constantino. É comum ouvirmos ainda hoje nos nossos púlpitos falar da Páscoa, Pentecostes ou Tabernáculos como as "festas dos judeus". As mesmas de que Deus falou como sendo Suas: chamou-lhes "as solenidades do Senhor" (Levítico 23:4) e de festas celebradas para Ele (Levítico 23:14).

Apesar de separadas por cerca de 1500 anos, a Páscoa de Jesus e a Páscoa no Egipto, – a imagem perfeita e a sua sombra – foram sempre cumpridas na mesma data do calendário. Depois, por cerca de três séculos, os apóstolos, os pais da Igreja, assim como muitos milhões de crentes seguiram esse princípio, aliás expresso na advertência divina: "A Festa dos Pães Asmos guardarás; sete dias comerás pães asmos, como te tenho ordenado, ao tempo apontado no mês de abibe" (Êxodo 23:15). Na Igreja do século XXI, tudo mudou. Será, então, a nossa Páscoa-móvel fruto de uma correcção, ou de um desvio? Porque, se é uma correcção, temos de agradecer a Constantino pela clarividência e revelação bíblicas, a ponto de, ele, um político, ter guiado e "incentivado" os teólogos do Concílio de Niceia a agir. Mas,... e se for um desvio?...

Eduardo Fidalgo

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Carta do Imperador Constantino ao clero

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Quando a data da Páscoa mudou
Carta do Imperador Constantino
ao clero presente no Concílio de Nicéia I


Quando a questão relativa à sagrada celebração da Páscoa surgiu, universalmente se considerou que seria conveniente que todos mantivessem a celebração num mesmo dia, porque o que seria mais belo e mais desejável do que ver essa Festa, pela qual recebemos a esperança da imortalidade, ser celebrada por todos, em comum acordo, de uma mesma forma?
Chegou-se à conclusão de que era particularmente indigno que a mais sagrada das festas seguisse o costume (e o cálculo) dos judeus, que haviam manchado suas mãos com o mais terrível dos crimes e cujas mentes estavam cegas. Rejeitando o seu costume, nós poderemos transmitir aos nossos descendentes o modo legítimo de celebrar a Páscoa, que temos desde o tempo da Paixão de nosso Salvador até ao presente (de acordo com o dia da semana).
Não podemos, portanto, ter nada em comum com os judeus, porque o Salvador nos mostrou um outro caminho; nosso trabalho segue um curso mais legítimo e mais conveniente (a ordem dos dias da semana): e, consequentemente, deste modo, numa adopção unânime, desejamos, caros irmãos, separar-nos da imprópria companhia dos judeus, porque nos é verdadeiramente vergonhoso os ouvirmos se vangloriarem de que, sem sua orientação, não podemos guardar essa Festa. Como podem eles estar correctos, se após a morte do Senhor, não se apoiam mais na razão, senão na violência, já que a ilusão é quem os impele?
Eles não possuem a verdade na questão da Páscoa, porque, em sua cegueira e aversão a todas as provas, frequentemente celebram duas Páscoas no mesmo ano. Não podemos imitar aqueles que estão abertamente em erro. Como, então, podemos segui-los se estão, de facto, muito errados? Ora, celebrar a Páscoa duas vezes no ano é totalmente inadmissível. Mas, mesmo que não fosse assim, ainda permaneceria como vosso dever não manchar vossas almas tendo comunicação com aquele povo.
Além disso, considerem bem que, em tão importante questão, a respeito de solenidade de suma importância, não deveria haver divisão entre nós.
Nosso Salvador nos deixou somente um dia festivo de nossa redenção, ou seja, o dia de sua santa Paixão e ele quis estabelecer uma única Igreja Católica. Pensem, então, quão irregular é que no mesmo dia alguns estejam jejuando, enquanto outros estão sentados num banquete. E que após a Páscoa, alguns estejam se regozijando em festas, enquanto outros ainda estão observando um rigoroso jejum.
Por esta razão, a Divina Providência quer que este costume seja rectificado e regulado de maneira uniforme. Todos, eu espero, irão concordar neste ponto. Se, de um lado, é nosso dever nada fazer em comum com os que condenaram Nosso Senhor, e, por outro lado, se dentre os costumes agora observados pelas Igrejas do Ocidente, do Sul e do Norte e algumas do Oriente, há um mais recomendado, que seja ele aceito por todos. Eu estou seguro de vosso acordo, de que o que parecer bom para todos e que tenha sido combinado por vosso consenso seja aceito, com alegria, como o que será seguido por Roma, África, toda a Itália, Egipto, Espanha, Gálias, Bretanha, Líbia, toda a Grécia, as dioceses da Ásia, do Ponto e da Cilícia. Vós devereis considerar não somente que o número de igrejas nessas Províncias sejam a maioria, mas também que se procure a solução que nossa razão aprova e a que não tenha nada em comum com os judeus.
Para resumir em poucas palavras: Por unânime julgamento de todos, que se decida que a sacratíssima Festa da Páscoa seja, universalmente, celebrada num mesmo dia. Está claro que em tão sagrado assunto não deverá haver nenhuma divisão. E é o caso de aceitar, alegremente, o favor divino e esta verdadeira ordem. Todos os que participam das assembléias de bispos devem considerá-la procedente da vontade de Deus. Façam saber a vossos irmãos que o que for decretado, seja obedecido na celebração do santíssimo Dia. Poderemos assim celebrar a santa Páscoa simultaneamente. Se isso me for concedido, como espero para unir-me a vós, poderemos alegrar-nos juntos, considerando que o Poder Divino fez uso de nós como instrumento para destruir os desígnios malignos e, assim, trazer fé, paz e unidade para que floresçam em nosso meio. Possa Deus, meus irmãos, vos proteger com sua Graça.


Fonte: Eusébio de Cesaréia ("Vida de Constantino" III,18-20)

terça-feira, 31 de março de 2009

A Explosão na Sbarro's

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Uma explosão na Sbarro's

No mês de Agosto de 2001, Moshé (nome fictício), um bem sucedido empresário judeu, viajou para Israel afim de concretizar alguns negócios. Na quinta-feira, dia nove, entre duas reuniões, o empresário aproveitou para ir fazer um lanche rápido numa pizzaria na esquina das ruas Jaffa e Melech George, no centro de Jerusalém.
O estabelecimento estava superlotado. Logo ao entrar na pizzaria, Moshé percebeu que teria que esperar muito naquela fila enorme, se realmente quisesse comer alguma coisa – mas, na verdade, não dispunha de muito tempo. Indeciso e impaciente, pôs-se a ziguezaguear por perto do balcão de atendimento, esperando que alguma solução caísse do céu.
Percebendo a angústia do estrangeiro, um israelita perguntou-lhe se ele aceitava entrar na fila no lugar à frente do seu. Mais do que agradecido, Moshé aceitou. Fez o seu pedido, comeu rapidamente e saiu em direcção à sua próxima reunião.
Menos de dois minutos após ter saído, ouviu um estrondo terrível. Assustado, perguntou a um rapaz que vinha do mesmo caminho que ele acabara de percorrer o que acontecera. O jovem disse que um homem-bomba acabara de detonar uma bomba na pizzaria Sbarro‘s...
Moshé ficou branco. Por apenas dois minutos ele escapara ao atentado. Imediatamente se lembrou do homem israelita que lhe oferecera o lugar na fila. Certamente ele ainda estava na pizzaria. Aquele homem salvara a sua vida, mas agora poderia estar morto. Atemorizado, correu para o local do atentado para verificar se aquele se ele necessitava de ajuda. No local, contudo, encontrou uma situação caótica.
A Jihad Islâmica enchera a bomba do suicida com milhares de pregos, para aumentar o seu poder destrutivo. Além do terrorista, de vinte e três anos, outras dezoito pessoas morreram, seis delas sendo crianças. Cerca de outras noventa ficaram feridas, algumas em condições críticas. As cadeiras do restaurante estavam espalhadas pela calçada. Pessoas gritavam e acotovelavam-se na rua, algumas em pânico, outras tentando ajudar de alguma forma. Entre os feridos e mortos estendidos pelo chão, vítimas ensanguentadas eram socorridas por polícias e voluntários. Uma mulher com um bebé coberto de sangue implorava por ajuda...
Um dispositivo de emergência já estava a ser montado pelo exército. Moshé procurou o seu "salvador" entre as sirenes sem fim, mas não conseguiu encontrá-lo. Decidiu tentar de todas as formas saber o que acontecera com o israelita que lhe salvara a vida. Estava vivo por causa dele. Precisava saber o que lhe acontecera, se ele precisava de alguma ajuda e, acima de tudo, agradecer-lhe pela sua vida.

O senso de gratidão fez com que esquecesse da importante reunião que o aguardava. Começou a percorrer os hospitais da zona, para onde tinham sido levados os feridos no atentado. Finalmente encontrou o israelita num leito de um dos hospitais. Estava ferido, mas não corria risco de vida.
Moshé conversou com o filho daquele homem, que já estava acompanhando seu pai, e contou-lhe tudo o que acontecera. Disse que faria tudo o que fosse preciso por ele. Que estava extremamente grato àquele homem e que lhe devia a sua vida. Depois de alguns momentos, Moshé despediu-se do rapaz e deixou-lhe o seu cartão. Caso o seu pai necessitasse de qualquer tipo de ajuda, o jovem não deveria hesitar em comunicar com ele.
Quase um mês depois, recebeu um telefonema daquele rapaz no seu escritório em Nova Iorque, contando que o seu pai precisava de uma operação de emergência. Segundo os especialistas, o melhor hospital para fazer aquela delicada cirurgia ficava em Boston, Massachussets.
Moshé nem hesitou. Tomou todas as providências para que a cirurgia fosse realizada em poucos dias. Além disso, fez questão de ir pessoalmente receber e acompanhar o seu amigo a Boston, que fica a uma hora de avião de Nova Iorque.
Talvez outra pessoa não tivesse feito tantos esforços apenas pelo senso de gratidão. Outra pessoa poderia ter dito "Afinal, ele não teve intenção de salvar a minha vida: apenas me ofereceu um lugar na fila". Mas não Moshé. Ele sentia-se profundamente grato, mesmo um mês após o atentado. E ele sabia como retribuir um favor.
Naquela manhã de terça-feira, Moshé foi pessoalmente acompanhar o seu amigo – e não foi trabalhar. Sendo assim, pouco antes das nove horas da manhã, naquele dia onze de Setembro de 2001, Moshé não estava no seu escritório, no 101º andar de uma das Torres Gémeas do World Trade Center.

Relato do Rabi Issocher Frand
Adaptação: Eduardo Fidalgo