quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Há "um" messias na América ...

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20 de Janeiro de 2009. Apesar dos seis graus negativos, uma massa humana estimada em mais de dois milhões de pessoas fez questão de marcar presença na cerimónia de investidura do 44.º Presidente dos Estados Unidos da América. A multidão estendeu-se por cerca de dois quilómetros, e, para conseguir um lugar, muitos tiveram de chegar de madrugada, seis horas antes. Dentro desse perímetro de privilégio, a segurança não facilitou, e nenhum perigo foi minimizado. Ao todo, mais de 40.000 homens – entre polícias e soldados – zelaram pela normalidade do acto, para já não falar dos 2500 agentes infiltrados entre o público. Nos ecrãs-gigantes, desfilavam imagens do povo que aguardava. Em cada rosto, muita expectativa.

"Bendito aquele que vem..."
Os tempos não vão serenos, e o mundo está mergulhado numa tremenda crise social e financeira como há décadas não se assistia. A sombra do desemprego e o espectro da pobreza já chegaram aqui, à América. Nenhuma nação, ninguém..., parece estar a salvo. Nesse dia, porém, houve festa. Para além da esperança depositada na nova presidência, havia a convicção de que algo mais tinha sido alcançado. E a prova, era precisamente a cerimónia que estava prestes a começar, e que tinha por figura central aquele por quem todos tinham vindo – Barack Obama. E não somente os que estavam presentes, mas muitos milhões de outros que assistiam pelas televisões estavam da mesma forma solidários, e foram americanos por um par de horas. Declararam tréguas à crise, para saudar o homem que multiplicou a esperança de todos através do seu carisma e da sua personalidade.
E quando Barack Obama saiu pela porta que dava acesso à tribuna, foi como se se tivesse libertado no ar um aroma de tempos renovados. Foi como se naquele momento a América entrasse numa era de governação mais justa, ou como se princípios novos tivessem sido resgatados de um cativeiro e colocados à disposição deste povo, ... ou do próprio mundo.. A empatia gerada com aquele homem de sorriso fácil e franco traduziu-se um brado silencioso, que inundou completamente a multidão: "Bem-vindo aquele que vem...".

"Agora, Senhor, podes despedir em paz o teu servo, segundo a tua palavra, pois já os meus olhos viram..."
Entre eruditos e cantores, o presidente-eleito jurou fidelidade sobre uma Bíblia com história. Foi o primeiro afro-americano a fazê-lo. Agora, na televisão, as imagens eram ainda mais vibrantes: lágrimas rolavam pelas faces de muitos, cujos lábios tremiam, crispados de comoção. Milhares de olhos dirigiram-se para o céu, agradecendo a Deus terem visto aquele dia marcante e histórico. Era como se Lhe dissessem: "Agora, Senhor, já posso morrer em paz, ... porque os meus olhos viram este dia..."
Nesse mesmo instante, a 12 mil quilómetros dali, em Kogelo, no Quénia, a terra-natal do pai de Obama, o povo entoava cânticos: "A nossa criança, a nossa esperança..."

A Besta
Hora e meia após o início da cerimónia, já um Obama-presidente deixava o Capitólio e entrava naquela que será desde agora a sua viatura oficial: o Cadillac, por muitos conhecido como a Besta! Foi dessa forma que os serviços secretos norte-americanos baptizaram o Caddy, um carro-fortaleza ultra-secreto, que relega James Bond para uma personagem do passado. O que conhecemos são apenas as migalhas atiradas para o público, precisamente e só aquilo que se quis divulgar. Para além das mordomias a que Obama tem direito, está presente um equipamento de suporte de vida – oxigénio, e uma reserva do seu tipo de sangue. A Besta está equipada com câmaras de visão nocturna e armamento diverso, pneus com estrutura de aço, totalmente blindado e protegido contra armas químicas. O resto fica no domínio da imaginação. Sabe-se, isso sim, que tudo neste carro foi concebido para servir e proteger o presidente. Não só pela era pós-11 de Setembro, mas também pela dinâmica que muitos lhe adivinham, Barack Obama foi desejado, recebido e aceite como "um" messias na América. Porém, este messias não chega montado num jumento, nem tem dificuldades em encontrar lugar onde reclinar a sua cabeça.

A mega-crise
São evidentes as convulsões no mundo. Os tempos são de uma enorme agitação social, motivada pela mega-crise económica. E, se nas crises do passado os pobres ficaram sempre mais pobres e os ricos sempre mais ricos, desta vez não. Na verdade, muitos dos poderosos deste mundo têm caído, não sem antes arrastarem outros na queda. Milhões e milhões de pessoas vêem os seus postos de trabalho em perigo, e a cada dia que passa milhares deles entram no exército dos desempregados, passando a viver de programas que um pouco antes se destinavam somente aos que eram tocados pelo infortúnio.
É hoje muito clara a consciência de que as soluções não devem ser articuladas numa perspectiva regional, mas sim planetária. No entanto, até agora não foi possível caminhar. Não surgiu ninguém com capacidades de liderança dessa grandeza. Terá de ser alguém que compreenda as várias sensibilidades, que encontre uma plataforma de entendimento, um equilíbrio a partir do qual se possa trabalhar. Para muitos, Obama pode ser esse homem. É certo que ele é somente o presidente dos EUA, mas sabemos também que quase tudo o que acontece na América se faz sentir no mundo como um tsunami. Muitos acreditam que ele tem na mão a chave para um futuro promissor. Será Obama o guia para esse admirável mundo novo, o libertador que o mundo aguarda?

Barack Hussein Obama (ver perfil)
A capacidade de diálogo e entendimento que lhe é atribuída, é, ironicamente, reforçada por traços que são no mínimo, curiosos. São meramente simbólicos, mas apontam estranhamente para Barack Hussein Obama como se ele fosse senhor de um código genético perfeito para a moderação das grandes causas. Veja-se: o seu nome é meio-hebraico e meio-árabe. Na verdade, traz consigo tanto o Barack de Israel, como o Hussein do Islão. O sangue que lhe corre nas veias, meio-branco e meio-negro. A cor da pele é testemunha disso. Meio-branco por parte da mãe, e meio-negro por parte do pai. Ela era americana e ele queniano, filhos de dois continentes muito diferentes: do mais rico, e do mais pobre do planeta. Sintomaticamente, este seu cunho que nivela as diferenças está patente no discurso. Ainda há pouco tempo, acerca da religião em democracia, afirmou: "... a América já não é um país exclusivamente cristão. Agora, é também um país judaico, muçulmano, budista, hindú, e uma nação de descrentes." (Veja o filme, legendado em português.)

O insólito das posições de Obama
Barack Obama tem tomado posições que muitos têm aclamado como revolucionárias. No entanto, elas são insólitas, não por causa da originalidade do que defendem, mas porque nos habitámos ao vazio de ética e justiça que reina na política mundial. A classe governante serve-se escandalosamente da dialéctica: a arte de persuasão pelas palavras. Habituados a ver "provar" que o mau é "bom", ou que o nefasto nos fará "bem", somos surpreendidos quando um político nos confirma que afinal o "branco" é como nós pensamos ser. Vejamos algumas das situações em que Obama teve a coragem de assumir posições "insólitas":

"... a César o que é de César..."
Ainda que a sua governação seja por agora um plano de intenções, há muito que ele se propôs transformá-la num caderno de encargos. Na verdade, a ética afigura-se como uma das imagens de marca da sua administração. Recentemente assistimos ao desagrado contido com que reagiu ao "lapso" do homem escolhido para Secretário do Tesouro. Timothy Geithner "esqueceu-se" do pagamento de alguns impostos. Segundo o próprio, "um erro de boa-fé". O descontentamento de Obama, mais que um aviso, foi a exortação didáctica que significou: "... a César o que é de César..."
E também nos últimos dias, quando mais dois escândalos relacionados com escolhas do presidente vieram a público, as suas próprias palavras foram "... é importante que esta administração mostre que não pratica uma política de dois pesos e duas medidas ..."

"... ao que quer demandar contigo e tirar-te a túnica, deixa-lhe também a capa ..."
A sua escolha de colaboradores foi sempre rodeada de contornos peculiares e até contrários à política vigente. Obama nunca olhou às cores partidárias, nem deu muita atenção aos nomes nas cadeiras, estivessem elas no seu partido ou no outro. Daí a chamar muitos desses nomes, foi um passo. E note-se que nem sempre lhe fizeram considerações simpáticas, nos tempos em que ele era ainda e só o candidato negro. Joseph Biden, por exemplo, foi escolhido para a vice-presidência, mas quando Obama se mostrou aos americanos como candidato à Casa Branca, Biden teceu comentários considerados ofensivos às suas origens africanas, defenindo-o como "...o primeiro negro de posição centrista que é articulado, brilhante, limpo e de boa aparência ..." Obama optou por seguir uma conduta de alheamento a estes pequenos incidentes e de pacificação perante situações delicadas. Na prática, é como se cumprisse o elevado princípio de caminhar a segunda milha com quem o desafia: "... ao que quer demandar contigo e tirar-te a túnica, deixa-lhe também a capa. Se alguém te obrigar a andar uma milha, vai com ele duas....".

"Limpa primeiro o interior do copo e do prato, para que também o exterior fique limpo."
E após ter ocupado a presidência, uma das primeiras medidas que tomou foi a de congelar os salários dos que trabalham na Casa Branca e que auferem um salário anual superior a 100.000 dólares. Num país com tantas assimetrias sociais, o discurso de tomada de posse foi bem claro, e apenas o primeiro indício: "...aqueles dentre nós que gerem o dólar público serão cobrados ... porque só então conseguiremos restabelecer a confiança vital entre as pessoas e seu governo." Isto é o que Obama queria dizer ao falar "da força do exemplo, em vez do exemplo da força". Uma atitude anti-farisaica, o exemplo vindo de dentro, a necessidade de "...limpar primeiro o interior do copo e do prato, para que também o exterior fique limpo".

"... apregoar liberdade aos cativos, ... pôr em liberdade os oprimidos ..."
A cadeia na Baía de Guantanamo, onde os presos se amontoam sem quaisquer direitos e sujeitos a torturas, foi dos maiores calcanhares de Aquiles na administração Bush. Obama não perdeu tempo em fazer cumprir uma promessa eleitoral, e, uma das primeiras medidas tomadas, foi a de iniciar o processo de encerramento da prisão. Será que esta vai ser uma das poucas vezes na História em que um governante associa os conceitos de ética pessoal, de justiça pública e misericórdia pelo seu semelhante? Quem é este homem, que tem a coragem de "... proclamar liberdade aos cativos e a abertura de prisão aos presos; ...?

Um imitador ou uma imitação?
Os grandes dramas do mundo têm conduzido a uma divergência global, e, até hoje o lema tem sido: "conseguiremos a paz, ainda que para isso tenha de haver guerra". Pelo falhanço continuado, a paz constitui-se como o maior dos anseios.
Esta voz revolucionária, surgindo num contexto de déficit de lideranças bem-sucedidas, lança a imagem de um Obama-messias, aclamado pelas massas como o único capaz de mudar o estado das coisas. Um jornalista que cobriu a tomada de posse definiu o momento como sendo: "o dia de viragem da História!" Para uma Nova Ordem Mundial (?), perguntamos nós. Certamente, essa mesma História vai encarregar-se de nos mostrar se a aclamação "messiânica" foi ou não precipitada.

A verdade é que Obama ainda não tem um passado político tão marcante que nos dê garantias de fazer melhor do que outros já fizeram. As expectativas criadas em torno dele, são mais fruto do desespero geral que devidas a um curriculum incontornável, ou a provas dadas no passado. São mais devido à falta de soluções do mundo que fruto de créditos já firmados na política. Senhor de uma retórica brilhante, que tem chamado a atenção até de líderes pouco convencionais, parece que o mundo inteiro está estranhamente seduzido e rendido aos pés deste homem, e disposto a depositar o futuro nas suas mãos.

Sejamos honestos. Muitos dos conceitos surpreendentes anunciados por Barack Hussein Obama ao mundo, não são criações inovadoras. Há muito que foram proclamados pelo Messias da Bíblia, o mesmo Jesus que Obama afirma ensinar princípios tão radicais quese tornam impossíveis de atingir.Mas a grande incógnita neste momento está em se entender a sua verdadeira posição: será ele um imitador do Messias ou uma imitação? Um imitador do Messias será sempre remetido para a aprendizagem, a obediência e a dependência. A imitação do Messias, por outro lado, remete para o abuso, para o embuste e fraude grosseira. Foi o verdadeiro Messias quem afirmou: "Muitos virão em meu nome..."

A História mostra-nos que a capitulação dos povos perante a "genialidade" de um homem já é um caminho conhecido, e que nunca levou a bons resultados.

Mas a Bíblia..., aquela Bíblia sobre a qual Barack Obama jurou fidelidade diz-nos "... sabeis diferençar a face do céu e não conheceis os sinais dos tempos?" "E, certamente, ouvireis falar de guerras e rumores de guerras; vede, não vos assusteis, porque é necessário assim acontecer, mas ainda não é o fim. Porquanto se levantará nação contra nação, reino contra reino, e haverá fomes e terremotos em vários lugares; porém tudo isto é o princípio das dores."
Barack Hussein Obama – Um imitador ou uma imitação? Os tempos, e os sinais dos tempos vão encarregar-se de nos mostrar.

Eduardo Fidalgo

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

A Bíblia mutilada

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A Bíblia mutilada


Esta peça é um comentário a declarações feitas por Barack Obama sobre religião na América. Veja também o filme, legendado em português.

Barack Obama afirmou (sic):
"Dada a crescente diversidade das populações dos Estados Unidos, os riscos do sectarismo estão maiores que nunca. O que quer que nós já tenhamos sido, nós não somos mais uma nação cristã. Pelo menos, não somente. Nós somos também uma nação judaica, uma nação muçulmana, e uma nação budista, e uma nação hindu, e uma nação de descrentes. E mesmo se nós tivéssemos apenas cristãos entre nós, se expulsássemos todos os não-cristãos dos Estados Unidos da América, o cristianismo de quem, nós ensinaríamos nas escolas? Seria o de James Dobson, ou o de Al Sharpton?
Que passagens das Escrituras deveriam instruir as nossas políticas públicas? Deveríamos escolher o Levítico, que sugere que a escravidão é aceitável? E que comer frutos do mar é uma abominação? Ou poderíamos escolher o Deuteronómio, que sugere apedrejar o seu filho, se ele se desviar da fé? Ou deveríamos apenas ficar com o Sermão da Montanha? Uma passagem que é tão radical que é de se duvidar que o nosso próprio Departamento de Defesa sobreviveria à sua aplicação.
Nós... Então, antes de nos empolgarmos, vamos ler as nossas Bíblias agora. As pessoas não têm lido a Bíblia."


Que Bíblia?
É do domínio público que Barack Obama fez o seu juramento solene sobre a Bíblia de Abraham Lincoln. O mundo assistiu. Partindo dessa imagem, poder-se-ia concluir que o presidente tem uma relação de proximidade com as Escrituras. No entanto, as declarações que acabámos de transcrever, proferidas a 28 de Junho de 2006, "Time to renewal" (Tempo de renovação), parecem desmentir essa impressão. Ao falar acerca de religião em democracia, o presidente pergunta: "Se a América só tivesse cristãos, que cristianismo ensinaríamos nas nossas escolas?", para logo de seguida, e em cima desta, colocar outra questão, de maior amplitude: "Que passagens das Escrituras deveriam instruir as nossas políticas públicas?"
E, como exemplos do que em democracia não deve nem pode ser feito, Obama alude a alguns versículos dos livros do Êxodo e Deuteronómio, exactamente aqueles que acolhem no seu seio os Dez Mandamentos (Êxodo 20 e Deuteronómio 5), só para mencionar dois textos fundamentais. Para além disso, aborda o Sermão que Jesus ensinou no monte, definindo-o como tão radical que acaba por ser impossível de o levar à pratica, despojando-o do seu significado altamente espiritual que por todos é reconhecido. Para o ilustrar, quase nos sugere a imagem de burocratas no Departamento de Defesa, vencidos por conceitos alucinados e inúteis. Talvez para não entrar em campo minado, não mencionou a pena de morte, que a Bíblia também aborda, mas que já é suficientemente democrática na América... Noblesse oblige.


As conclusões a que o presidente chega, são, efectivamente inquietantes, e merecem, também da nossa parte, algumas considerações e algumas perguntas.

Em primeiro lugar, a exposição que faz dos textos sagrados do Velho Testamento, é lamentável. Oxalá se venha a mostrar melhor político que exegeta bíblico. Acaba por dar força à máxima: "Texto fora do contexto, é pretexto." Ao retirar aquelas passagens do seu enquadramento cultural, histórico e teológico, elas caem (claro!), sem estrutura que as suporte, e aparentemente condenáveis.
Em segundo lugar: O presidente retalha a Bíblia, e certamente estará preparado para mutilar todas as passagens que, a seu ver, sejam um empecilho para a sua democracia. Porém, parece esquecer-se de um facto:
A América tornou-se o país de vanguarda que é, muito por causa dos princípios cristãos que os seus fundadores imprimiram à sua governação, e que conduziram o país ao lugar de maior democracia mundial. Por outro lado, é uma incógnita se a actual Babel de religiões, a proclamada América-cristã-judaica-muçulmana-budista-hindú-descrente irá manter o país nessa posição.
A origem do poder que a América já mostrou ao mundo, foi identificada pelos próprios governantes, quando foi mandado imprimir nas suas notas a
inscrição "In God we trust" (Cremos em Deus). Mas como se comportará a América perante o princípio democrático aceite de "In gods we trust" (Cremos em vários deuses)?
Em terceiro lugar: Não fica clara a razão por que Obama fez o seu juramento sobre uma Bíblia. Afinal de contas, ele informa-nos que a América já não é só um país cristão... Mas, uma vez que a usou, isso deveu-se à tradição ou às convicções do presidente?
Em quarto lugar: Se, na sua perspectiva, a Bíblia contém tantos obstáculos ao bom desenrolar da democracia, que é necessário retirar alguns do caminho, em consciência, sobre que parte, ou sobre que partes da Bíblia prestou juramento este presidente? Creio que nenhum cristão esclarecido lhe agradecerá tê-lo feito sobre uma Bíblia mutilada (não a de
Lincoln, mas a de Obama).
Em quinto lugar, parece-me que o que o presidente propõe não são as religiões em democracia, mas antes, a democracia das religiões.

Exemplificando com a problemática do aborto e o cristianismo, Obama mostra que em benefício da sociedade, ao cristão só lhe resta a possibilidade de empenhar princípios fundamentais da sua fé sempre que não os possa traduzir em termos racionais aceitáveis. Esta erosão de valores e princípios, implementada a nível de todos os credos, conduz pura e simplesmente a uma religião única, a uma das etapas de uma Nova Ordem Mundial, tão abertamente desejada pelos políticos mundiais!

Em sexto lugar: A Bíblia permanece inalterada. Inicia-se em Génesis e termina no Apocalipse. É una, indivisível, divinamente inspirada e inerrante. Já resistiu e sobreviveu a ataques tremendos. A Bíblia não fica mutilada nem amordaçada por causa do discurso ou da acção de quem quer que seja. Bem pelo contrário, continua a falar: "Não terás outros deuses diante de mim." "... do nome de outros deuses nem vos lembreis, nem se ouça da vossa boca." "Toda palavra de Deus é pura." (Êxodo 20:3,13; Prov.30:5a). Sigamos, então, o conselho do presidente Obama: "As pessoas não têm lido a Bíblia. ... vamos ler as nossas Bíblias agora."
Eduardo Fidalgo

Veja: Abraham Lincoln e a Bíblia (em inglês)

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto








Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto

"Um povo que esquece a sua historia está condenado a repeti-la."
Por isso, comemora-se hoje, 27 de Janeiro de 2009, o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto. Esta data com História foi escolhida pelas Nações Unidas para recordar todos aqueles que foram vítimas do maior massacre dos tempos modernos, destinado a erradicar todos aqueles que eram considerados indesejáveis e prejudiciais na sociedade que o regime nazi se propunha construir.
As vítimas não foram somente judeus, embora estes tenham constituído a sua esmagadora maioria. Foram também ciganos, Testemunhas de Jeová, portadores de deficiência física, comunistas, sindicalistas, etc. Todos os que fugiam ao conceito de "normalização" do regime, eram pura e simplesmente eliminados.
Dos judeus, seis milhões. Desses, um milhão e meio eram crianças. Estou certo que este último número só adquire a sua real dimensão quando visitamos o monumento que lhes foi dedicado, no Museu Yad Vashem, em Jerusalém.
Ali, ainda hoje somos quebrados, esmagados pela animalidade cometida há mais de 60 anos. Ali, as vítimas deixam de ser estatística, para passarem a ser meninos ou meninas, com nomes exactamente iguais aos dos nossos filhos, e em idade imprópria para morrer. E ao sairmos daquele espaço, perguntamo-nos: "Como foi possível?"
A violência carrega sempre atrás de si actos de injustiça e imoralidade social. As guerras de grande dimensão, potenciam-nos. E os nazis, os algozes da Solução Final – o Holocausto – idealizaram-no com inteligência, sistematizaram-no com zelo, e saborearam-lhe os resultados.


"Um povo que esquece a sua historia está condenado a repeti-la."
Cabe-nos então, ensinar os mais novos, de modo a que também eles venham a dizer: "Nunca mais!" Há que ensinar o Holocausto, e ensinar a propósito do holocausto. Porque os povos todos os dias criam novos conflitos, torna-se uma tarefa de todos os dias. Porque são os homens que fazem as guerras, e os homens somos nós.


Eduardo Fidalgo



Livro Recomendado:
ensinar o HOLOCAUSTO no século XXI
Autor: Jean-Michel Lecomte
Prefácio: Esther Mucznic

Ninguém protestou


Ninguém protestou

Um poema de Martin Niemöller*


"Quando os nazis levaram os comunistas,
eu calei-me,
porque,
eu não era comunista.


Quando eles prenderam os sociais-democratas,
eu calei-me,
porque,
eu não era social-democrata.


Quando eles levaram os sindicalistas,
eu não protestei,
porque,
eu não era sindicalista.


Quando levaram os judeus,
eu não protestei,
porque,
eu não era judeu.


Quando eles me levaram,
não havia mais ninguém que protestasse"



* Martin Niemöller
Nascido em 14 de Janeiro de 1892, em Lippstadt, Westphalia, Alemanha, Martin Niemöller foi político, teólogo e pastor protestante. Opôs-se tenazmente ao nazismo, e por causa disso passou os últimos 7 anos do regime preso nos campos de concentração de Sachsenhausen e Dachau. Martin Niemöller foi um pacifista cristão que teve a coragem de fazer frente ao próprio Furher, no momento em que foi obrigado a escolher entre o conceito de patriotismo que Hitler defendia, e as suas próprias convicções cristãs. Após a queda nazi, foi eleito Presidente da Igreja Protestante da Alemanha (l947), tendo permanecido nesse cargo até l964. Faleceu em Wiesbaden, a 6 de Março de 1984.


Fazer algo mais que recordar


Fazer algo mais que recordar

O Holocausto foi uma tragédia única e inegável. Decorridas várias décadas, a matança sistemática de milhões de judeus e de outras pessoas continua a chocar-nos. O facto dos nazis conseguirem conquistar adeptos, apesar do seu carácter profundamente depravado, continua infundindo temor. E, acima de tudo, subsiste a dor: nos sobreviventes idosos e em todos nós, membros da família humana, que fomos testemunhas dessa descida à barbárie.
A recordação constitui uma homenagem aos que pereceram, mas também desempenha um papel crucial nos nossos esforços por conter a tendência da crueldade humana. Mantém-nos vigilantes perante novos surtos de anti-semitismo e outras formas de intolerância. Além disso, constitui uma resposta essencial aos que sustentam erradamente que o Holocausto não aconteceu ou que foi exagerado.
O Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto é um dia em que devemos reafirmar a nossa adesão aos direitos humanos, uma causa que foi brutalmente profanada em Auschwitz bem como pelos genocídios e atrocidades cometidos desde então.
Devemos também fazer algo mais do que recordar; devemos velar para que as novas gerações conheçam essa parte da História. Devemos aplicar as razões do Holocausto ao mundo actual e fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para que todos os povos gozem da protecção e dos direitos que a ONU defende.
Neste Dia Internacional, reitero o meu firme empenho em cumprir essa missão e peço a que se juntem à nossa procura comum da dignidade humana.


Ban Ki-Moon
Secretário-Geral da ONU

Veja a biografia (espanhol)

Para que nunca mais volte a acontecer!


Para que nunca mais volte a acontecer!



"É um dia para ser lembrado - não especialmente pelos judeus -

mas pela Humanidade."

Esther Mucznik - Programa "Caminhos"


... um mundo de onde o bem se ausentou...


... um mundo de onde o bem se ausentou...

Veja o vídeo na íntegra

.../...

Compreendemos o que se passou? Não compreendemos. Não se pode compreender um processo racional, burocrático e sistemático, cuidadosamente planificado e arquitectado, para realizar o irracional. No entanto, mesmo que as nossas palavras sejam irremediavelmente pobres para descrever o horror concentracionário, temos o dever de falar. Temos o dever de recordar um mundo de onde o Bem se ausentou, um mundo que negou o homem porque negou o direito a ser diferente. Milhões foram martirizados, sobretudo judeus. Honramos a memória de todas as vítimas. Mas quando se nega tão radicalmente o homem, a maior vítima é a própria humanidade. O trabalho de memória começa por ser um esforço de reconstituição de um passado que não pode ser negado. É mais do que um imperativo de justiça. Contra a indiferença, contra o esquecimento, é de uma pedagogia que precisamos: que todos saibam o que aconteceu para que todos sejam levados a agir de modo a que não volte a acontecer. Por isso, a resolução da Assembleia Geral das Nações Unidas instou todos os Estados a desenvolver programas de educação que transmitam às novas gerações as lições do Holocausto. Permitam-me que recorde uma lição que nos foi legada pelo grande livro da sabedoria rabínica, o Talmude: aquele que é de todos o mais poderoso não é o que destrói o seu inimigo, mas o que transforma o inimigo em amigo. Quando esta lição, válida em todos os tempos e para todos os homens, for verdadeiramente aprendida, alcançaremos a paz abundante e a vida boa para nós e para todo o Povo de Israel que a oração que há pouco partilhámos nos promete.

Excerto da intervenção do Presidente da República por ocasião do Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto Sinagoga de Lisboa, 27 de Janeiro de 2008

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

A Última Paragem



A páginas tantas...





"Na manhã seguinte chegou o primeiro comboio procedente de Lemberg: 45 vagões com 6700 pessoas, das quais 1450 já tinham morrido pelo caminho. Por detrás das janelas com grades olhavam-nos umas crianças terrivelmente pálidas e assustadas, com lágrimas nos olhos, do mesmo modo que os homens e as mulheres.
O comboio entrou na gare. Duzentos soldados ucranianos abriram as portas e a chicotadas obrigaram os passageiros a descer dos vagões de carga. Um altifalante ia dando instruções. Obrigava os recém-chegados a despirem-se dos pés à cabeça, colocando cuidadosamente no lugar indicado os óculos, os sapatos, depois de atar os atacadores de cada sapato para que facilmente pudesse encontrar-se o pé que correspondia ao outro. Os objectos de valor tinham de ser entregues num barracão. As mulheres e as meninas eram conduzidas com antecedência ao barbeiro que com dois golpes de tesoura lhes cortava o cabelo que introduzia nuns sacos de batatas.

O comboio pôs-se de novo em movimento. À frente ia uma formosa rapariga, nua dos pés à cabeça como todos os que a seguiam, homens, mulheres e crianças, mulheres que mantinham os seus pequenos filhos nos braços. A maior parte daqueles seres conhecia a sorte que os esperava, visto que não havia quase ninguém que se deixasse enganar. Hesitavam uns segundos, mas depois entravam nas câmaras de gás enquanto os soldados das SS continuavam a bater-lhes com os seus chicotes. Uma judia, de uns quarenta anos, amaldiçoou, aos gritos, os carrascos e o capitão Wirth, pessoalmente, bateu-lhe cinco ou seis vezes com o seu chicote na cara. Muitos dos homens e mulheres oravam em voz alta.
As câmaras iam-se enchendo. Quase que já não havia mais ninguém... de acordo com o que lhe tinha ordenado o capitão Wirth. De setecentas a oitocentas pessoas ocupavam um espaço de 25 metros quadrados, 45 metros cúbicos. Fecharam as portas. O meu cronómetro registava tudo. Cinquenta segundos, setenta segundos... o motor não funcionava. As vítimas esperavam nas câmaras de gás. Nada. Ouvímo-las chorar. O capitão Wirth bateu com o chicote no ucraniano que devia ajudar o sargento Hekenholt a ligar o motor. Aos quarenta e nove minutos, o meu cronómetro indicava a hora exacta, começou a funcionar o motor. Passaram outros vinte e cinco minutos. Efectivamente, muitos já tinham morrido. Aos vinte e oito viviam muito poucos. Finalmente, aos trinta e dois minutos todos tinham deixado de existir.
No outro extremo da câmara, os grupos de trabalho, constituídos por judeus, abriram as portas. Os mortos estavam em pé como se fossem colunas de basalto. Não havia lugar suficiente para que fossem caindo nem sequer para se inclinarem de um lado a outro. Até mortos era fácil reconhecer as famílias. Mantinham-se agarradas nas mãos de um modo que depois se tornava difícil separá-los para deixar livre a câmara para o seguinte carregamento. Tiravam os cadáveres, manchados de suor, de urina e de excrementos. Os cadáveres das crianças eram atirados pelo ar. Os chicotes dos ucranianos caíam sobre os judeus. Duas dúzias de dentistas abriam, com uns grandes ganchos, as bocas dos mortos e procuravam dentes de ouro. Outros trabalhadores investigavam os genitais e o ânus à procura de brilhantes e ouro."

Terríveis e incríveis são os depoimentos dos que foram testemunhas de todas estas cenas. Um deles foi a jornalista francesa Claude Vaillan-Couturier, deputada e dama de Legião de Honra. Presa por ter pertencido à resistência francesa foi conduzida a Auschwitz: "Vi grande número de cadáveres no pátio e de quando em quando via uma mão ou uma cabeça que tratava de mexer-se e libertar-se do peso que tinha em cima. No pátio do Bloco 25 vi correr uns ratos tão grandes como gatos, que não só atacavam os cadáveres mas também os moribundos que já não tinham forças suficientes para se defender.
Até para aqueles que tinham sido seleccionados para o trabalho a sua vida era um verdadeiro inferno. Não havia camas, mas só tarimbas de madeira e nas quais nos víamos obrigados a dormir oito ou nove pessoas, sem mantas nem palha. Às três e meia da madrugada despertavam-nos os gritos do chefe do barracão. Espancando-nos, obrigavam-nos a sair para o ar livre. Nem sequer as moribundas ficavam isentas deste tormento. E ali ao ar livre, em pleno Inverno, tínhamos de permanecer em pé até às sete ou oito da manhã...
"No Verão do ano de 1944" – continuou a relatar a testemunha – "os recém-chegados eram recebidos por uma banda militar que interpretava alegres canções antes que os destinassem aos grupos de trabalho ou à câmara de gás. Sob os acordes de ‘A viúva alegre’ eram destinados à morte."

... Durante dias e dias foram desfilando as testemunhas perante o Tribunal de Nuremberga ...

Coordenação de Eduardo Fidalgo # Excerto da obra "O Julgamento de Nuremberga", de Joe J. Heydecker e Johannes Leeb. 1.ª edição, 1962. Editorial Ibis, Lda.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Sangue NO MEU Sangue



Sangue NO MEU Sangue

Um estudo levado a cabo pelo prestigiado American Journal of Human Genetics e publicado no passado dia 5 de Dezembro pelo Jornal Público, revela dados surpreendentes acerca de memórias esquecidas no sangue que corre nas veias dos portugueses.

O estudo foi feito por uma equipa de cientistas internacionais liderada pelo Dr. Mark Jobling, e incluiu também investigadores do nosso país. Com o título de "O legado genético da diversidade religiosa e da intolerância: Linhagens paternas dos cristãos, judeus e muçulmanos na Península Ibérica", o estudo incidiu sobre uma população de mais de mil homens, habitantes dos territórios de Portugal, Espanha e Ilhas Baleares, e com raízes familiares permanentes nesses mesmos territórios desde os primeiros anos do século XX.
Em detalhe, o estudo concentrou-se na evolução do cromossoma Y, que é passado de pai para filho e na posterior análise de elementos que permitiram concluir que o sangue dos habitantes actuais da Península Ibérica tem uma forte contribuição de outras gentes, identificadas como sefarditas e magrebinos. O que significa isso? Significa pura e simplesmente que o sangue do Portugal de hoje tem uma componente importante de sangue judeu e de sangue árabe do norte de África! A notícia, não sendo uma novidade em si, é-o contudo pelo facto do estudo indiciar que esta contribuição não-Ibérica está muito acima dos valores estimáveis até hoje.
Assim, e no que toca a Portugal, o estudo foi elaborado dividindo-se o território em duas zonas distintas: uma zona Norte e uma Sul, considerando como fronteira e obstáculo natural entre as duas o sistema montanhoso Montejunto-Estrela. A Norte, chegou-se a um valor de 23,6% de sangue sefardita, e 11,8% de magrebino. E a Sul de 36,3% e 16,1%, respectivamente. O que nos leva a uma inesperada média nacional de 30% de sangue judeu e 14% de sangue magrebino. Uma outra conclusão surpreendente é a de que os valores em Portugal são mais elevados que em qualquer região de Espanha, apesar da presença quer de judeus quer de árabes no país vizinho ter sido incomparavelmente maior. Como são possíveis valores de tal grandeza no nosso país? Podemos entender o estudo ora divulgado face aos acontecimentos históricos?

Cristãos-novos e criptojudeus – Pegadas de ADN
Judeus e árabes entraram na Península Ibérica em épocas remotas, mas em tempos diferentes. Primeiro vieram os judeus, crê-se que no limiar da era cristã, e depois os árabes por volta do séc. VIII (o nascimento do Reino de Portugal ainda vinha longe). Mas, se é certo que judeus e árabes não chegaram juntos, estiveram, no entanto, de mãos dadas no final infeliz que o Rei D. Manuel lhes preparou.
Refiro-me a pelo menos três circunstâncias especiais que envolveram e ditaram a sorte destas duas comunidades. Em primeiro lugar, é claro, o Édito de Expulsão dos Judeus, cujo texto já aqui publiquei, e o enquadramento social e político de que esse documento se revestiu, nomeadamente como uma clara cedência perante a corte espanhola, face ao casamento do monarca com a infanta D. Isabel, filha dos Reis Católicos. Não nos esqueçamos que esse Édito de 1496 arruinou a segurança não só dos judeus que habitavam no Reino português, mas também de todos aqueles que, desde 1492, ou seja, 4 anos antes, tinham fugido de Espanha por causa de uma lei de expulsão semelhante, e se tinham refugiado entre nós.
Em segundo lugar, a conversão forçada ao catolicismo assim como os raptos de judeus menores de idade, actos perpretados sempre com o aval do rei, e todos com o intuito de "fixar" no território lusitano o maior número possível de famílias judaicas.
E em terceiro lugar, numa visão mais alargada no tempo, à entrada em cena da Inquisição portuguesa, precisamente 40 anos depois do Édito português. Face às confusões manuelinas no tocante às relações com as gentes da nação (judeus), e que se traduziram em sucessivos avanços e recuos, em permissões e proibições, muitos adoptaram uma atitude de firmeza e preferiram (tentar) sair do país, não acatando o "convite" de conversão. Mas muitíssimos outros ficaram. E os que ficaram, são precisamente os que deixaram pegadas de ADN, de que o estudo de que temos vindo a falar é testemunha.
Destes últimos, alguns tornaram-se cristãos-novos: o medo, o receio pela sua segurança, ou mesmo a indiferença perante os conceitos éticos e religiosos dos seus antepassados, fez com que eles não fossem suficientemente fortes para se obrigarem a um compromisso radical. Substituíram o nome hebraico atribuído no dia da sua circuncisão por um nome cristão, experimentaram a aspersão do baptismo católico, e passaram até a marcar presença nas grandes solenidades religiosas.
Outros, tornaram-se falsos cristãos-novos: Colocaram uma chancela católica na forma como passaram a viver, mas nunca abandonaram o conteúdo herdado dos seus pais, ainda que este fosse praticado às escondidas, muitas vezes com artifícios de simulação brilhantes, e que hoje fazem parte dos nossos gestos quotidianos.
Por último, outros ainda, percebendo que a escolha proposta era pura e simplesmente entre a fogueira e o baptismo, não quiseram nem uma coisa nem outra. Optaram por aceitar a ajuda e protecção natural de serranias, de montes, de vales, de invernos, de chuvas e de ventos, e tornaram-se criptojudeus, de que a comunidade de Belmonte é um exemplo com 500 anos. Rodeando-se de cuidados extremos, passaram a viver como uma comunidade secreta, em que o secretismo vivia de mãos dadas com o isolamento geográfico. Uma sociedade que se auto-ajustou constantemente, a ponto de não ser mais nem católica nem judaica, para se tornar simplesmente no símbolo de homens e mulheres crentes, sobreviventes ao terrorismo religioso em nome de Deus. E é precisamente deste sangue de que o nosso também é feito.
Ainda no artigo do Jornal Público, quando entrevistado, um responsável pela unidade de investigação do Departamento de Genética do Instituto de Saúde Ricardo Jorge, em Lisboa, afirma, (referindo-se às altas percentagens de sangue judeu sefardita e norte-africano encontradas): "É mais do que se esperaria. Mas é em relação aos judeus sefarditas que as proporções são ‘enormes’. Os cristãos-novos são uma realidade. Muita gente não fugiu nem foi expulsa; misturou-se. Nós não temos essa noção, mas eles sobreviveram à intolerância religiosa."
Eduardo Fidalgo

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Você sabia que Israel...?



Um pouco do Israel moderno...


Israel MInistry of Foreign Affairs

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Se isto é um Homem



A páginas tantas ...

Se isto é um Homem

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Häfting: aprendi que eu sou um Häfting. O meu nome é 174 517; fomos baptizados, guardaremos até à morte a marca tatuada no braço esquerdo.
A operação foi levemente dolorosa e extraordinariamente rápida: puseram-nos todos em fila e, um a um, pela ordem alfabética dos nossos nomes, passámos diante de um hábil funcionário munido de uma espécie de punção com a agulha muito curta. Ao que parece é esta a verdadeira iniciação: só "mostrando o número" se recebem o pão e a sopa. Foram precisos vários dias, e não poucos socos e bofetadas, para que nos habituássemos a mostrar o número prontamente, de forma a não atrapalhar as operações diárias de distribuição da comida; foram precisos semanas e meses para que aprendêssemos o som em língua alemã. E durante muitos dias, sempre que o hábito dos dias livres me levava a procurar as horas no relógio de pulso, no seu lugar aparecia-me ironicamente o meu novo nome, o número bordado em sinais azulados debaixo da epiderme.
Só muito mais tarde, e pouco a pouco, alguns de nós acabaram por aprender algo da funesta ciência dos números de Auschwitz, em que se compendiam as etapas da destruição do judaísmo da Europa. Aos velhos do campo, o número diz tudo: a época de entrada no campo, o comboio de que se fazia parte, e, por consequência, a nacionalidade. Cada um tratará com respeito os números de 30 000 a 80 000: já só restam algumas centenas, e indicam os poucos sobreviventes dos guetos polacos. Convém abrir bem os olhos quando se entra em relações comerciais com um 116 000 ou um 117 000: estão reduzidos a cerca de quarenta, mas trata-se dos gregos de Salónica, é preciso não se deixar enganar. Quanto aos números altos; contêm uma nota essencialmente cómica, como acontece com as expressões "caloiro" ou "recruta" na vida normal: o número alto típico é um indivíduo pançudo, dócil e ingénuo ao qual podes fazer acreditar que na enfermaria distribuem sapatos de couro para indivíduos de pés delicados, convencendo-o a correr até lá, deixando a sua marmita de sopa "à tua guarda"; podes vender-lhe uma colher por três rações; podes mandá-lo ter com o mais feroz dos Kapos, para lhe perguntar (aconteceu-me a mim!) se é verdade que o dele é o Kartoffel­-schälkommando, o Kommando Descasca-Batatas, e se é possível alistar-se.

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Coordenação de Eduardo Fidalgo # Excerto da obra "Se isto é um Homem" (2002, Colecção Mil Folhas, 15 - Público), de Primo Levi (1919-1987). Judeu italiano, foi capturado a 13 de Dezembro de 1943, deportado para o campo de concentração de Fossoli e em Fevereiro de 1944 para Auschwitz.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Édito de Extermínio dos Judeus (I) - Egipto

O que foi, isso é o que há de ser; e o que se fez, isso se tornará a fazer; de modo que nada há novo debaixo do sol - Livro de Eclesiastes 1:9

Édito de Extermínio dos Judeus (I) - Egipto

Quando Israel sofreu no Egipto, Abraão era já uma personagem de memória respeitável. Foi com ele que Deus deu início ao sonho de um povo novo, um povo criado sobre o desconforto e coragem das mudanças na vida do patriarca. Foi a Abraão que Deus deu promessas que lhe sugeriam que esse povo seria um dos pratos da balança que havia de equilibrar ou desequilibrar não só aquele território do Crescente Fértil, mas o próprio mundo (Génesis 12:1-3). Foi a Abraão que Deus desvendou um tempo de aflição de cerca de quatrocentos anos (Génesis 15:13-14), prova muito dura para um povo-bebé, com apenas uma mão-cheia de gerações.
A estada no Egipto revela-nos a primeira das acções de extermínio (ou tentativa de extermínio) em que o povo judeu se viu envolvido. Bastantes anos mais tarde, a rainha Ester e seu tio Mordechai estariam no palco de mais uma outra acção desse tipo.
"De modo que nada há novo debaixo do sol." Por isso, nos dias de hoje, os "Adolph Hitler" ou os "Mahmoud Ahmadinejad" são apenas ditadores que nasceram com experiência.

Estes, pois, são os nomes dos filhos de Israel, que entraram no Egipto com Jacó; cada um entrou com sua casa: Rúben, Simeão, Levi e Judá; Issacar, Zebulom e Benjamim; Dã, Naftali, Gade e Aser. Todas as almas, pois, que descenderam de Jacó foram setenta almas; José, porém, estava no Egipto. Sendo, pois, José falecido, e todos os seus irmãos, e toda aquela geração, os filhos de Israel frutificaram, e aumentaram muito, e multiplicaram-se, e foram fortalecidos grandemente; de maneira que a terra se encheu deles.
Depois, levantou-se um novo rei sobre o Egipto, que não conhecera a José, o qual disse ao seu povo: Eis que o povo dos filhos de Israel é muito e mais poderoso do que nós. Eia, usemos sabiamente para com ele, para que não se multiplique, e aconteça que, vindo guerra, ele também se ajunte com os nossos inimigos, e peleje contra nós, e suba da terra. E os egípcios puseram sobre eles maiorais de tributos, {ou tarefas} para os afligirem com suas cargas. E edificaram a Faraó cidades de tesouros, Pitom e Ramessés. Mas, quanto mais os afligiam, tanto mais se multiplicavam e tanto mais cresciam; de maneira que se enfadavam por causa dos filhos de Israel. E os egípcios faziam servir os filhos de Israel com dureza; assim, lhes fizeram amargar a vida com dura servidão, em barro e em tijolos, e com todo o trabalho no campo, com todo o seu serviço, em que os serviam com dureza.
E o rei do Egipto falou às parteiras das hebréias (das quais o nome de uma era Sifrá, e o nome da outra, Puá) e disse: Quando ajudardes no parto as hebréias e as virdes sobre os assentos, se for filho, matai-o; mas, se for filha, então, viva. As parteiras, porém, temeram a Deus e não fizeram como o rei do Egipto lhes dissera; antes, conservavam os meninos com vida. Então, o rei do Egipto chamou as parteiras e disse-lhes: Por que fizestes isto, que guardastes os meninos com vida? E as parteiras disseram a Faraó: É que as mulheres hebréias não são como as egípcias; porque são vivas {ou espertas} e já têm dado à luz os filhos antes que a parteira venha a elas. Portanto, Deus fez bem às parteiras. E o povo se aumentou e se fortaleceu muito. E aconteceu que, como as parteiras temeram a Deus, estabeleceu-lhes casas. Então, ordenou Faraó a todo o seu povo, dizendo: A todos os filhos que nascerem lançareis no rio, mas a todas as filhas guardareis com vida.

Coordenação de Eduardo Fidalgo # da Bíblia, versão Almeida Corrigida, in Êxodo – capítulo 1

Uma caverna secreta debaixo da Jerusalém Bíblica


Segredos e Lendas debaixo da Cidade Velha

Como abertura deste espaço – Viagens na minha terra – iremos até um lugar muito especial. Especial, até mesmo porque não faz parte do itinerário normal dos que viajam até à Terra Santa. É daqueles lugares que só se visitam quando já se conhece quase tudo o que é emblemático, e vem nos livros. Situa-se a escassos metros da Porta de Damasco, no limite da muralha da Cidade Velha de Jerusalém. Em rigor, debaixo dela.
Assim que soube da sua existência, conhecer a Caverna de Zedequias passou a fazer parte da minha lista de prioridades. O que li e ouvi acerca deste lugar foi suficiente para criar em mim um desejo muito forte de o tentar ver e entender. Em Janeiro deste ano, consegui, e posso dizer que foi um dos momentos mais íntimos que já desfrutei em Israel. Talvez o silêncio do lugar, contrastando com a minha constante indagação àquelas pedras acerca das histórias que têm para contar ou talvez a sua grandiosidade esmagadora (literalmente...), fazem deste lugar um lugar ímpar. Muito pertinho do turismo de massas que agride e suga Jerusalém, está, no entanto, suficientemente longe para que os seus efeitos se façam sentir ali.
Bem nas entranhas da terra, a História convida-nos a sonhar: Uma antiga pedreira, o caminho secreto usado na fuga do último rei de Israel, ou muito mais que isso...?

A descoberta
Algumas das descobertas arqueológicas mais fascinantes na Terra de Israel foram resultado de circunstâncias fortuitas. A Caverna de Zedequias é uma dessas descobertas. No inverno do ano de 1854, o Dr. James Turner Barclay (1807-1874), um distinto erudito americano, na época a trabalhar em Jerusalém, passeava com o seu filho em dia de algum sol, fora das muralhas da Cidade Velha. Estavam perto da Porta de Damasco, e o cão da família corria à sua volta, divertindo-se, aproveitando a liberdade que o momento lhe oferecia. O passeio estava a ser agradável, até que, de repente, o cão desapareceu. O Dr. Barcley chamou-o repetidamente, assobiando do mesmo modo pelo qual o animal estava habituado a reconhecê-lo, mas não obteve nenhuma resposta. Tanto ele como o seu filho continuaram à procura do bicho, sem qualquer resultado. A dada altura, junto à zona rochosa onde as muralhas estavam edificadas, o rapaz penetrou a custo numa cova – que era na verdade uma cisterna profunda que recebia as águas das últimas chuvas – e ficou surpreendido quando, lá bem do fundo da terra, ouviu o seu cachorro a ladrar. Entrando da mesma forma que o filho, o Dr. Barcley pôde perceber que se encontravam numa caverna – escura, e ao que parecia, enorme. Desta forma, ao cão aventureiro do Dr. Barcley é atribuída a redescoberta da maior gruta artificial alguma vez encontrada em Israel. Voltando na noite seguinte, desta vez com meios de exploração, James Turner Barcley percebeu imediatamente a dimensão e importância daquele lugar. E dias depois, apresentou ao mundo a Caverna de Zedequias.

A caverna esquecida
Embora a opinião não seja consensual, crê-se que foi durante a construção das muralhas da cidade por Solimão II (1495-1566), o Magnífico, Sultão do Império Otomano, que a Caverna de Zedequias foi bloqueada com grandes pedras, de modo a impedir que se tornasse num elo fraco na estrutura de fortificações da cidade. Permaneceu selada até à sua redescoberta no inverno de 1854. Durante o Mandato Britânico (1917-1947) foi aberta ao público. Durante a II Guerra Mundial foi adaptada como abrigo, para a eventualidade de bombardeamentos alemães ou italianos. Sob o governo Jordano foi novamente fechada, e reaberta depois da Guerra dos Seis Dias (1967), já sob controle israelita.

Aspecto e dimensões
A gruta é, na verdade, uma enorme pedreira de onde foram retiradas, durante anos, as pedras necessárias à construção de grande parte dos edifícios nobres da Cidade de Jerusalém. Como já pudemos perceber, a boca da gruta situa-se muito perto da Porta de Damasco, junto às rochas que servem de fundação à muralha da cidade, estendendo-se por baixo dela, para sul. Os pilares que se observam não são senão partes da caverna de onde não foi extraída qualquer matéria-prima, de modo a servirem de suporte aos milhares e milhares de toneladas que lhe estão por cima. A gruta tem uma área de 9.000 metros quadrados. Mede 230 metros de comprimento (ainda que galerias recentemente descobertas quadrupliquem este valor), e excede os 100 metros de largura máxima. A altura média é de 15 metros, ou seja, a correspondente a um prédio de 4 andares. A espessura de rocha que vai do tecto da caverna até às fundações da cidade acima de si, é de 10 metros.

A pedreira subterrânea mais importante de Israel
A proximidade da pedreira em relação à cidade, e o facto de se encontrar numa gruta, provendo aos trabalhadores uma defesa natural contra o sol escaldante do verão, deram a este lugar argumentos suficientes para a transformarem na pedreira subterrânea mais importante do país. Por outro lado, a qualidade da pedra dali retirada é excelente. Grande parte pertence ao tipo que em árabe se designa por "Melekeh", ou seja, "real". E fazendo jus ao seu nome, ela foi realmente usada na construção dos edifícios reais da cidade, sendo o Monte do Templo o exemplo maior.

Os primeiros trabalhadores da pedreira
Quem foram os primeiros trabalhadores destas pedreiras? Teriam sido os construtores do rei Salomão? A Bíblia relata: "Tinha também Salomão setenta mil que levavam as cargas e oitenta mil que cortavam nas montanhas. Afora os chefes dos oficiais de Salomão, os quais estavam sobre aquela obra, três mil e trezentos, que davam as ordens ao povo que fazia aquela obra. E mandou o rei que trouxessem pedras grandes e pedras preciosas, pedras lavradas, para fundarem a casa." – I Reis 5:15-17
Estes versículos desde sempre intrigaram os eruditos. Alguns, sugeriram mesmo que a proximidade do Monte Moriá e Ofel com a Caverna de Zedequias terá levado Salomão a utilizar preferencialmente esta fonte de matéria-prima, de fácil acesso e transporte para as suas construções. E é dessa forma que surge o outro nome pelo qual a caverna é conhecida: As Pedreiras do Rei Salomão. No entanto, nada disso foi provado até agora.

Realidade e a tradição misturam-se
Outros, preferem ligar este lugar à memória do último rei de Judá – Zedequias – , na sua fuga em direcção às campinas de Jericó, perante um rei Nabucodonosor vitorioso. "No mês quarto, aos nove do mês, quando a fome prevalecia na cidade, e o povo da terra não tinha pão, foi aberta uma brecha na cidade, e todos os homens de guerra fugiram, e saíram de noite, pelo caminho da porta, entre os dois muros que estavam junto ao jardim do rei (porque os caldeus estavam contra a cidade ao redor), e foram pelo caminho da campina. Mas o exército dos caldeus seguiu o rei, e alcançaram Zedequias nas campinas de Jericó, e todo o seu exército se espalhou, abandonando-o. E prenderam o rei e o fizeram subir ao rei da Babilónia, a Ribla, na terra de Hamate, o qual lhe lavrou ali a sentença." – Jeremias 52:6-9.
Através dos tempos, nem a opinião contrária dos eruditos conseguiu impedir a ligação de Zedequias a este lugar. Como exemplo perfeito, o recanto em que a água escorre do tecto da gruta e forma um pequeno charco no chão: a lenda e a tradição denominam-no como o lugar das Lágrimas de Zedequias, alegadamente as lágrimas que derramou quando viu os seus filhos serem mortos pelos Caldeus. "E o rei da Babilónia degolou os filhos de Zedequias à sua vista e também degolou a todos os príncipes de Judá, em Ribla." – Jeremias 52:10.

A época de actividade da pedreira
Como vimos, há quem advogue que o local está ligado às construções salomónicas. Mas, na verdade, situarmos a actividade desta pedreira no Período do Primeiro Templo requer provas mais substanciais que até ao presente não se encontram ainda disponíveis. O mais provável é que ela tenha começado a ser utilizada no Período do Segundo Templo, mais propriamente durante as enormes obras de construção levadas a cabo pelo Rei Herodes. Certo é que a dada altura a pedreira foi abandonada, e depois disso o acesso foi bloqueado. Crê-se, como atrás foi dito, que isso aconteceu durante a construção das muralhas já no século XVI (1535-1538), por Solimão. A seguir, a instabilidade da vida em Israel e o tempo, encarregaram-se de fazer esquecer a sua localização.
Mas sabemos, e isso sem qualquer sombra de dúvida, quando foram cortadas as últimas pedras desta pedreira. Aconteceu no século XX, em 1904, precisamente 50 anos depois da redescoberta de Barclay. Os Turcos, então em Jerusalém, erigiram na Porta de Jafa uma torre com um relógio, monumento que fazia parte de uma série de outros similares espalhados por todo o Israel. A pedra dessa torre veio da Caverna de Zedequias, que foi desmantelada nos anos 20, já durante o Mandato Britânico.

Memórias e fantasias
Esta é a história resumida de um lugar fascinante. Entre o que se sabe e o que desconhece, a caverna continuará a evocar memórias e fantasias. Diz-se que o profeta Jeremias a utilizou para esconder a Arca da Aliança e pô-la a salvo dos Caldeus. Memória ou fantasia?
As pedras permanecem mudas, elas não contam o que viram. Mas quem sabe, se um dia uma nova galeria não será descoberta e lance luz sobre o passado, e possamos finalmente vir a conhecer todos os segredos ocultos por milénios, 10 metros abaixo da Cidade Velha...
Fotografia: Eduardo Fidalgo / Bibliografia: The Secret Cave of Ancient Jerusalém
Eduardo Fidalgo

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Édito de Expulsão dos Judeus (I) de Portugal


Aqueles que ignoram a História estão condenados a repetir os seus erros...

Édito de Expulsão (I) de Portugal (de judeus e mouros)

Portugal, vila de Muge, 5 de Dezembro de 1496. Pressionado pelas exigências dos Reis Católicos no âmbito de uma cláusula do seu próprio casamento com a princesa D. Isabel, filha daqueles reis, D. Manuel I de Portugal promulga o Édito de Expulsão. Neste decreto, D. Manuel, expulsa do território nacional não só os judeus mas também os mouros, dando-lhes um prazo limite para permanecer no país de 10 meses, o mesmo é dizer, até finais de Outubro. No que tocava aos judeus, o rei estava plenamente ciente da importância que aquela comunidade representava, nomeadamente na vertente económica. Dessa forma, a gestão desta matéria caracterizou-se por um conjunto de avanços e recuos, que tão depressa cumpriam os trâmites requeridos para o casamento como observavam o melhor para o reino lusitano. Assim, para os judeus que quisessem receber as águas do Baptismo havia liberdade de permanecer. Os que não o fizessem, ficariam sujeitos à pena de morte e ao confisco dos bens. Mais tarde, medidas que dificultavam a saída dos judeus foram implementadas. Mas Espanha pressionava, e a própria infanta D. Isabel manifestou abertamente ao rei a sua posição, ao declarar: "só entrarei em Portugal, quando estiver limpo de infiéis". Ficava clara, deste modo, não só a intolerância religiosa espanhola, como a permeabilidade do reino português às exigências externas. O texto manuelino era do seguinte teor:

Que Judeus e Mouros se saiam destes Reynos, e nom morem, nem estem nelles.
Porque todo fiel Christão sobre todas as cousas he obriguado fazer aquellas que sam seruiço de Nosso Senhor, acrecentamento de sua Sancta Fee Catholica, e a estas nom soomente deuem pospoer todos os guanhos e perdas deste mundo, mas ainda as próprias vidas, o que os Reys muito mais inteiramente fazer deuem, e sam obriguados, porque per Jesu Christo nosso Senhor sam, e regem, e delle recebem neste mundo maiores merces, que outra algua pessoa, polo qual sendo Nós muito certo, que os Judeus e Mouros obstinados no ódio da Nossa Sancta Fee Catholica de Christo nosso Senhor, que por sua morte nos remio, tem cometido, e continuadamente contra elle cometem grandes males, e blasfémias em estes Nossos Reynos, as quaes nom tam soomente a elles, que sam filhos de maldiçam, em quamto na dureza de seus corações esteuerem, sam causa de mais condenaçam, mas ainda a muitos Christãos fazem apartar da verdadeira carreira que he a Sancta Fee Catholica; por estas, e outras mui grandes e necessarias razões, que Nos a esto mouem,
que a todo Christão sam notorias e manifestas, avida madura deliberaçam com os do Nosso Conselho, e Letrados, Determinamos, e Mandamos, que da pubricaçam desta Nossa Ley, e Determinaçam atá per todo o mez d’Outubro do anno do Nacimento de Nosso Senhor de mil e quatrocentos e nouenta e sete, todos os judeus, e Mouros forros, que em Nossos Reynos ouuer, se saiam fóra delles, sob pena de morte natural, e perder as fazendas, pera quem os acusar. E qualquer pessoa que passado o dito tempo teuer escondido alguu Judeu, ou Mouro forro, per este mesmo.feito Queremos que perca toda sua fazenda, e bens, pera quem o acusar, e Roguamos, e Encomendamos, e Mandamos por nossa bençam, e sob pena de maldiçam aos Reys Nossos Socessores, que nunca em tempo aluu leixem morar , nem estar em estes Nossos Reynos, e Senhorios d’elles, ninhuu Judeu, nem Mouro forro, por ninhua cousa, nem razam que seja, os quaes Judeus, e Mouros Leixaremos hir liuremente com todas suas fazendas, e lhe Mandaremos paguar quaesquer diuidas, que lhe em Nossos Reynos forem deuidas, e assi pera sua hida lhe Daremos todo auiamento, e despacho que comprir. E por quanto todas as rendas, e dereitos das Judarias, e Mourarias Temos dadas, Mandamos aas pessoas que as de Nós tem, que Nos venham requerer sobre ello, porque a Nós Praz de lhe mandar dar outro tanto, quanto as ditas Judarias, e Mourarias rendem.
Coordenação de Eduardo Fidalgo

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

O que é um "Justo entre as Nações"?


O que é um "Justo entre as Nações"?

Aristides de Sousa Mendes, português.
Raoul Wallenberg, sueco.
Óskar Schindler, alemão.


Originários de nações diferentes, estes homens também viveram em zonas geográficas da terra diferentes. Todavia eles têm uma coisa em comum. O quê? Eis a resposta: Os três estiveram directamente ligados ao povo judeu num momento específico da História, e tiveram intervenções de grande coragem e carácter. Dessa forma, manter-se-ão para sempre ligados ao povo judeu, até porque todos eles foram agraciados pelo Estado de Israel com o título de "Justos entre as nações"! E o que significa esse título?

A II Grande Guerra Mundial
Apenas 21 anos decorridos sobre o final da I Grande Guerra, e já o mundo mergulhava novamente nos horrores de um novo conflito bélico. E, tal como a anterior, essa nova guerra de grandes proporções a que o Século XX assistiu foi recheada de episódios que mostraram contradições gritantes do próprio Homem. "Conhecimento, progresso e tolerância", as suas grandes bandeiras, acabaram por se mostrar tanto ineficazes como insuficientes para resolver a crise. O cenário apelava também à "prudência, realismo e astúcia", mas elas ficaram arredadas. Dessa forma, foi impossível conciliar os vários interesses divergentes equacionados nos pratos da balança. Mencionar somente a violência que se chamou "Hiroshima" será suficiente para se perceber o quão longe podem ir as (re)soluções do homem quando ele fica sujeito a pressões às quais não é possível furtar-se.

O final dessa Guerra Mundial não trouxe o desanuviamento natural que uma declaração de paz traz sempre após si. Pelo contrário, trouxe consigo a sombra de uma revelação ignóbil, talvez o mais grave dentre todos os acontecimentos ignóbeis que tiveram lugar durante o conflito: refiro-me, é claro, ao Holocausto.
Quando o mundo acordou do pesadelo da guerra e ficou livre dele, o espectro do Holocausto ocupou o lugar deixado vago. Percebeu-se então que nunca como naquele momento a máxima proverbial de Plauto fazia todo o sentido: Homo homini lupus – O Homem é o lobo do Homem! Ainda hoje, passados mais de sessenta anos, não existem respostas lineares para explicar como foi possível que um punhado de homens pudesse exercer um controlo tão extremo sobre outros, lançando mão de comportamentos doentios, e que o conseguisse fazer às escondidas do mundo. Que mecanismos afinal impelem o homem a constituir-se lobo de si mesmo, e a aniquilar o que lhe é semelhante, nem que para isso se tenha de transformar num monstro?

É amplamente sabido que este genocídio subtraiu a vida a seis milhões de judeus, dos quais um milhão e meio eram crianças. Mas, cerca de 3 anos depois, a 14 de Maio de 1948, nascia o Estado de Israel, e com ele o lugar onde o judeu podia, finalmente, estar na sua terra. A criação do Estado de Israel permitiu ao judeu contrariar o curso que a sua própria História tinha tomado nos dois milénios anteriores. Permitiu-lhe usufruir de uma regalia desconhecida de muitas das últimas gerações de judeus da Diáspora: a de não viver em terra emprestada, sob o espectro da segregação, imposta por sociedades anti-semitas.



Justos entre as nações
Foi em 1957 que, dando seguimento a uma lei emanada do Knesset, foi inaugurado o Yad Vashem, Instituição para a Comemoração dos Mártires e Heróis do Holocausto, tributo e Memorial Eterno àqueles seis milhões de judeus que pereceram no Holocausto. O nome – Yad Vashem – é retirado do versículo bíblico de Isaías 56:5, e significa "... uma mão e um nome ..." ou "... uma mão e um memorial ...". A criação deste Museu, levou a que se passasse a celebrar o nome de homens e mulheres que tinham arriscado as suas vidas para salvar Judeus durante o grande conflito. A eles foi dado o nome de "Justos entre as nações".
Ouçamos, no entanto, o testemunho que o Yad Vashem apresenta sobre esta matéria, ao mesmo tempo que a enquadra no cenário da II Guerra Mundial:


"Nesses tempos, havia trevas por toda a parte. Nos céus e na terra, todas as portas da misericórdia pareciam ter sido fechadas. O assassino assassinava, os judeus morriam, e o mundo lá fora adoptou uma atitude de cumplicidade ou de indiferença. Somente alguns tiveram a coragem de se importar. Esses poucos homens e mulheres estavam vulneráveis, com medo, e sem esperança – o que é que fez deles seres diferentes dos seus concidadãos? ... Por que é que eles eram tão poucos? ... Lembrêmo-nos: Aquilo que fere mais a vítima não é a crueldade do opressor, mas o silêncio do que observa ... Não esqueçamos, apesar de tudo, que há sempre um momento em que a escolha moral é feita. ... E assim, temos de conhecer essa gente boa que ajudou os judeus durante o Holocausto. Devemos aprender com eles, e em gratidão e esperança, devemos lembrá-los."

O termo "Justo entre as nações" tem a sua origem na tradição judaica – da literatura dos sábios – onde era usado para descrever os não-judeus que vinham em auxílio dos judeus em tempo de necessidade, ou os não-judeus que respeitavam os requisitos básicos da Bíblia. A lei de Yad Vashem introduz um novo significado ao termo, ao caracterizar os "Justos entre as nações" como aqueles que não somente salvaram Judeus, mas que arriscaram as suas vidas para o fazer. Este é o critério principal pelo qual o título é atribuído.

As "honras" devidas aos "Justos entre as nações"
Até ao final do ano de 2007, o Yad Vashem tinha reconhecido como "Justos entre as nações" cerca de 22.000 cidadãos de 44 nações diferentes, entre as quais Portugal, na pessoa do seu diplomata, e ex-Cônsul em Bordéus, Aristides de Sousa Mendes. Várias são as honras devidas a estes homens e mulheres. A atribuição do título é antecedida de um processo de autenticação, e ao agraciado é concedida uma medalha com o seu nome, e um certificado de Honra, sendo-lhe conferida a Cidadania Honorária do Estado de Israel. No entanto, se à data já tiver falecido, é-lhe outorgada a Cidadania Comemorativa. Para além disso, o seu nome está gravado na Muralha de Honra, no Jardim dos Justos. A medalha atribuída ostenta o ditado judaico: "Aquele que salva uma única vida, salva um universo inteiro" (Sanhedrin 37,71). O enorme significado desta citação fica plenamente demonstrado quando famílias de sobreviventes do Holocausto – com filhos, netos, e (hoje já com) bisnetos – vêm juntos para honrar o Justo que socorreu um dos seus. Frequentemente, eles representam somente o ramo sobrevivente de uma família inteira que pereceu. Na Avenida dos Justos entre as Nações, inaugurada em 1962, foram plantadas milhares de árvores (símbolo da vida que se renova), e ao lado de cada uma existe sempre uma placa com um nome, que nos recorda os feitos de um "Justo entre as nações".


Explicado que está o significado do que é um "Justo entre as nações", iremos trazer oportunamente ao Blogue algumas destas personagens que marcaram a História do mundo, e o enriqueceram com os seus feitos e a sua presença.

Eduardo Fidalgo