terça-feira, 21 de outubro de 2008

Viagens na minha Terra

Viagens na minha Terra

O título endossa-nos para ela, mas não tem nada a ver com a conhecida obra de Garrett. Porque a terra de que aqui se fala não é a dele, mas a minha. Não é Portugal, mas trata-se da Terra de Israel – Eretz Israel. Que eu considero minha. Por chamada de Deus e por livre escolha.

Estar em Israel – mesmo que seja por poucos dias – é a oportunidade única que o crente tem de enquadrar os lugares por onde passa num contexto bíblico real. Sem diluições teológicas e culturais – leia-se ocidentais. É a oportunidade de compreender as personagens bíblicas na perspectiva correcta. De entender melhor as suas vidas. De perceber pormenores que sempre lhe escaparam e que naquele lugar se tornam claros como água..., postos em evidência pela evidência diante dos seus olhos. Ali, é-nos facultada uma orientação muito mais fiel que nos permite ler nas entrelinhas, perceber a razão de ser das coisas ou o silêncio dos Textos acerca delas. No entanto, se isso se consegue perfeitamente em alguns lugares, noutros é mais difícil. Porque Israel não parou no tempo à espera da nossa visita e também porque já não é, em muitos aspectos, o Israel da Bíblia. Por isso, estou absolutamente convencido (e essa tem sido a minha prática) que para entendermos a Terra de Israel, para além de ver, há que ler, e há que orar. Ou seja, para que a nossa visita seja proveitosa (espiritualmente falando), é preciso que não só os nossos olhos vejam, mas também que Deus e a Sua revelação escrita sejam presentes em nós e em sintonia perfeita. Nesta matéria, já vi muitos irmãos decepcionados em Israel, simplesmente porque quiseram ser turistas crentes, ao invés de serem crentes turistas.

Neste espaço – Viagens na minha terra – é minha intenção dar a conhecer alguns cantinhos de Israel onde eu já tive o privilégio de estar pessoalmente. Vou socorrer-me da memória, e também de informações que trouxe acerca deles. Uns serão mais apetecíveis que outros, com maior ou menor expressão, mais ou menos visitados, mas tentarei vê-los a todos através de um denominador comum: a sua ligação às Escrituras e o entendimento que a ela trazem. Tentarei sempre escapar ao carácter turístico dos lugares e enfatizar o seu enquadramento escriturístico. As fotos serão minhas. Da minha terra, ... em viagens.

Eduardo Fidalgo

Sifrá e Puá - Parteiras Pró-Vida

Sifrá e Puá - Parteiras Pró-Vida

E o rei do Egipto falou às parteiras das hebréias (das quais o nome de uma era Sifrá, e o nome da outra, Puá) e disse: Quando ajudardes no parto as hebréias e as virdes sobre os assentos, se for filho, matai-o; mas, se for filha, então, viva. As parteiras, porém, temeram a Deus e não fizeram como o rei do Egipto lhes dissera; antes, conservavam os meninos com vida. Então, o rei do Egipto chamou as parteiras e disse-lhes: Por que fizestes isto, que guardastes os meninos com vida? E as parteiras disseram a Faraó: É que as mulheres hebréias não são como as egípcias; porque são vivas {ou espertas} e já têm dado à luz os filhos antes que a parteira venha a elas. Portanto, Deus fez bem às parteiras. E o povo se aumentou e se fortaleceu muito. E aconteceu que, como as parteiras temeram a Deus, estabeleceu-lhes casas. Então, ordenou Faraó a todo o seu povo, dizendo: A todos os filhos que nascerem lançareis no rio, mas a todas as filhas guardareis com vida. - Êxodo 1:15-22

A Bíblia não nos informa acerca do nome deste Faraó, nem do posterior Faraó do Êxodo, fazendo que por essa razão muitos se refiram a estes episódios como uma mera ficção, e outros tentem a datação dos eventos ou a identificação daquelas personagens. No entanto, não há, até hoje, consenso nessa matéria. Em contraste, no entanto, a Bíblia fornece-nos o nome destas duas simples parteiras, que evitaram uma extinção prematura do povo judeu. Elas estiveram no meio das teias que teceram aquilo a que chamarei de: "A Solução Final – I Acto".

Faraó ordenou-lhes, "quando ajudardes no parto as hebréias e as virdes sobre os assentos, se for filho, matai-o; mas, se for filha, então, viva". – Êxodo 1:16. A ordem era tão clara e tão específica quanto definitiva. Não dava qualquer margem de manobra, nem admitia escusas. E o que podiam fazer duas pobres mulheres, a não ser obedecer? Por várias razões, estavam, na verdade, numa posição muito frágil, não só face à estrutura social do Egipto como também face à sua própria condição. Senão, vejamos:

Em primeiro lugar, eram mulheres. Isso remetia-as para um deficit de direitos e uma montanha de obrigações, tanto na família como na sociedade. Por estes lados do mundo, o dia a dia das mulheres foi sempre um quotidiano esforçado e penoso. Havia tarefas atribuídas exclusivamente a elas, que não eram tarefas leves. A provisão de água para casa era uma dessas tarefas. Naqueles tempos, o lugar da fonte ou do poço não eram escolhidos para comodidade dos locais, mas estava onde a água estava: muitas vezes, longe da porta. Havia que a tirar da nascente, puxando-a à força de braços, e transportá-la elas mesmas, quando não havia o recurso a animais para lhes minorar o esforço da tarefa. Do ponto de vista social, a fragilidade era a sua condição. À mulher cabia obedecer sem contestar.

A Bíblia não nos informa se viviam exclusivamente da sua profissão, ou se a exerciam acumulando outras actividades. Sabemos, isso sim, que estavam numa terra que não era a sua, e onde eram simplesmente representantes de um povo escravo e escravizado. E esse é um outro aspecto da posição precária em que se encontravam. Escravidão! Escravas – eis o que elas eram realmente! Não eram, de forma alguma, iguais entre iguais. Era impensável, por exemplo, que uma família egípcia lhes tributasse qualquer reconhecimento por ter ajudado um filho seu a vir ao mundo. Não eram respeitadas. No passado, o seu povo tinha entrado naquela terra como um ilustre convidado, a família do governador José, no meio a festas e honrarias ao mais alto nível, mas agora labutavam entre o barro e a lama que davam corpo às cidades do homem mais poderoso da terra. Porque o Egipto, à época, era isso mesmo: uma Super-Potência. Na verdade, Sifrá e Puá foram colocadas numa posição para a qual não não tinham muitas opções de saída. Parecia, aliás, que a única possível era humilhar-se perante aquela personagem sinistra que se tinha interposto no seu caminho, com intentos que elas não podiam perceber nas motivações, mas entendiam muito bem nas consequências. Escravas, filhas de escravos, mães de escravos no futuro. E, no horizonte, nenhuma perspectiva de liberdade. Parecia que Israel estava destinado a servir para sempre, talvez mesmo até à sua extinção, dadas as condições sub-humanas em que se encontravam. As privações e os chicotes de Faraó poderiam muito bem executar de forma mais rápida, aquilo que ele estava tentando operar de um modo estratégico.

Em terceiro lugar, uma outra razão pela qual a sua pequenez e incapacidade se tornava ainda mais gritante: elas pertenciam ao povo hebreu. Por causa disso era como se carregassem um estigma que as tornava inferiores aos olhos dos outros. Sem se entender muito bem porquê, sentia-se no ar um ódio lactente, um incómodo tão profundo que tinha o seu quê de irracional e diabólico, perante este povo que, não querendo constituir uma ameaça, dava mostras de estar conformado com o seu destino, definitivamente abatido, de tão vergado que estava.

Sifrá e Puá. Mulheres, escravas e hebréias. Esforçadas, oprimidas e odiadas. Tinham nas suas mãos o poder de vida e de morte. Que seria a sua, se desobedecessem às ordens do rei, ou a do seu povo, se obedecessem aos seus desejos. Entretanto, este estava prestes a aprender que a estratégia de astúcia que tinha empregue contra os israelitas (Êxodo 1:10) é uma via de dois sentidos. Não sabia ele que a visão das duas mulheres era bem mais ampla do que ele alguma vez tinha percebido. Para elas, nem o seu mundo se esgotava no reino do Egipto, nem a sua vida numa escolha de medo e resignação. E, juntas, como se fossem uma só pessoa, mostram até hoje ao mundo o que significa integridade para com os valores em que se acredita.

Às vezes gosto de sonhar, e dar continuidade às histórias da Bíblia para além daquilo que ela mesma nos oferece. Gosto de sonhar particularmente com estas duas mulheres, e pelo que há de extraordinário nas suas vidas. A sua profissão consistia em dar vida, e não em roubá-la. Habituadas que estavam a lidar diariamente com esse milagre, foi-lhes impossível agir contra ele. E Deus, em toda a Sua graça, pagou com a mesma moeda – retribuiu o seu gesto com a dádiva de vida. Vida gerou vida. E é tocante ler no texto sagrado que Deus lhes constituiu família. (Êxodo 1:21).

E uma vez que o povo de Israel ainda continua sobre a terra, passados que foram mais alguns actos da "Solução Final", quero sonhar que até ao dia de hoje, Deus conservou descendentes destas duas parteiras, como forma de honrar e perpetuar a opção que elas tomaram, em meio a uma situação de muito aperto. No meio de todas as dificuldades por que o povo de Israel tem passado e sobrevivido, gosto de pensar que há sempre alguns que são filhos das duas mulheres do Êxodo, que Deus não deixou perecer, chamando-as pelos seus próprios nomes, desejando claramente que elas sobrevivessem à sua acção. Não é possível provar o meu sonho, mas também não importa, porque é simplesmente isso: um sonho – o sonho de que enquanto houver judeus na terra, haverá sempre descendentes de Sifrá e Puá.

Yosef ben Ephraim